sábado, 28 de março de 2020

cidade


Uma pós cidade

Onde mora o perigo também cresce a salvação
Hölderlin


Para onde nos leva esta estrada

Uma pergunta ronda os tempos de pandemia.
Superada a fase crítica da peste, que afasta os corpos, separa e penaliza as proximidades e os afetos, quando ultrapassadas as perdas, as dores, os sofrimentos e as solidões dos isolamentos e das mortes, a que cidades retomaremos para nossos usos e prazeres?
As cidades, nos disse o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, são construídas para possibilitarem as conversas entre os homens e as mulheres, para ativarem as trocas no espaço público, nas praças e nos mercados, nas escolas e nos espetáculos, para compartilhar alegrias com os amigos nos bares, nas igrejas, nos estádios, etc.
Por séculos, a humanidade foi construindo um lugar denso, comum, um lugar de proximidade física e temporal, onde os cidadãos podem se encontrar e viver experiências comuns. Um lugar especial, a cidade, onde podemos discutir, concordar e discordar, comprar e vender, orar, dançar e cantar, estar em multidão, e nos reconhecer como sujeito diante do outro, do diferente, do bárbaro. Nestes ambientes e práticas urbanas civilizadas, rompemos nossa solidão, enfrentamos nossa inevitável finitude, e temos a oportunidade de reinventar nossa história e projetar o nosso futuro, pessoal e coletivo.
Nos tempos difíceis, quando nos recolhemos em nossas casas, nos afastamos da contaminação dos corpos dos próximos, amigos, parentes, desconhecidos, desconfiados de todos eles, possíveis de conter e espalhar o vírus mortal, o que estamos acumulando em nossas paixões e singularidades?
Estamos refletindo, que este momentos são os adequados para revermos nossas posturas diante da vida, diante das crescentes segregações sociais, econômicas e urbanas, dos individualismos, das intolerâncias e dos egoísmos?
Voltaremos, superados os fortes constrangimentos atuais, para partilhar uma cidade pós pandemia, com qual disposição de espírito e de ação?
Manteremos vestidos as nossas armaduras de segurança, que nos tem protegido da epidemia, reforçando, no retorno ao cotidiano, os preconceitos de todos os tipos, o ódio e o desprezo `a diversidade que circula nas nossas ruas,
ou
Vacinados com as limitações dos contatos físicos e afetivos, tornaremo-nos conscientes das condições e fragilidades comuns da humanidade, da sua dependência de tantos, médicos e enfermeiros, entregadores e motoristas, agricultores e policiais, artistas e professores, de inúmeros trabalhadores para a nossa própria sobrevivência,
Aceitaremos esta frágil situação da vida humana, que depende dos esforços, trabalhos e solidariedade de muitos para ter sentido, significado e continuidade,
e voltaremos `as ruas, mais humildes, mais solidários, mais atentos e quem sabe, mais animados para fazermos nossas cidades menos desiguais, mais justas, mais belas e mais felizes.

Kleber Frizzera
Março 2020  

terça-feira, 17 de março de 2020

Terceira ponte



Desde a sua inauguração, ou mesmo antes, a terceira ponte esteve presente nos debates, discussões, apreciações e desentendimentos que circulam nas conversas diárias dos moradores da metrópole e da midia capixaba.
No início, foi aplaudida como solução para os engarrafamentos que paralisavam a área central de Vitória, criticada quando interrompida a sua construção e finalmente intensamente comemorada na sua inauguração.
O trânsito pelo centro foi reduzido, os investimentos imobiliários- habitações e shoppings- abriram uma nova fronteira na orla de Vila Velha, atraindo novos e inúmeros moradores. Ninguém parou para pensar se a escolha de sua implantação teria sido a melhor ou mais adequada, estimulando a ocupação litorânea da cidade e dividindo o município em dois lados.
A concentração em Vitoria dos empregos e instituições públicas, o crescimento da ocupação do planalto de Carapina, fez que rapidamente a solução da terceira ponte se transformasse em um problema. O custo do pedágio, engarrafamentos diários e excepcionais em caso de seu fechamento, passaram a penalizar aqueles que diariamente são obrigados a utilizá-la e um mundo de propostas e ideias de soluções passou a circular.
Transporte aquaviario, alargamento com novas pistas, deslocamento temporário da barreira central, acessos a pedestres e bicicletas, redução ou eliminação do pedágio se somaram a dezenas de outras sugestões que ainda circulam no dia a dia da cidade.
Nenhuma ou quase nenhuma destas propostas entendeu que era e e’ preciso priorizar o transporte coletivo, não apenas, necessário para reduzir o volume de veículos privados, mas por ser a forma internacional adotada para o desenvolvimento sustentável das áreas metropolitanas, como preconiza o Plano de desenvolvimento integrado da Grande Vitoria - PDUI -aprovado pela Assembleia Legislativa nos final de 2018.
A proposta atual, apresentada pelo Governo do Estado, de ampliar uma faixa para veículos e a implantação de uma ciclovia parece anacrônica e desligada dos problemas reais e das soluções contemporâneas de mobilidade urbana.
A instalação de uma ciclovia, em uma via com inclinação de ate’ 6%, com mais de 3 km de extensão, além de permitir o passeio dominical, pouco ira’ facilitar o deslocamento cotidiano, parecendo ser apenas uma satisfação aos movimentos ciclistas. A expansão da oferta e dos horários dos ônibus que transportam bicicletas e’ muito mais econômico, mais seguro e menos penoso para os que a usam diariamente.
Quanto a uma nova faixa, que irá aumentar a capacidade da ponte, será tornada inútil quando desembocar estes somados veículos nas limitações físicas das ruas das duas cidades vizinhas, transferindo gargalos e engarrafamentos para os seus interiores.
Cabe entender que os veículos particulares, como base e fundamento da mobilidade urbana em todo o mundo estão com os dias contados. Mais e mais cidades têm restringido os acessos as suas áreas centrais, totalmente ou criando pedágios elevados, e buscado transferir as demandas de mobilidade pessoal para o transporte público, coletivo, alguns gratuitos, acessível, de alta capacidade e conforto, movidos a eletricidade e associados a uma forte intervenção na malha construída.
Na Grande Vitória, como ações gerais para melhoria e desempenho da mobilidade, creio urgente um conjunto de ações, visando :
1.   Conter a expansão da malha urbana, evitando a sua fragmentação e dispersão, que aumenta as distancias e tempos de deslocamento; estimular o adensamento dos setores construídos infra estruturados, em decadência ou com diminuição populacional
2.   Preparar a metrópole para as novas formas e relações de trabalho, dispersas, temporárias, muitas vezes precárias, ou feitas a distância, sendo muitas delas já’ deslocadas para o interior das moradias.
3.   Estruturar um sistema metropolitano de mobilidade, de pessoas e bens, gerido por uma empresa pública com a participação dos moradores e dos municípios.
São tarefas deste sistema criar as condições físicas e ambientais para o movimentos a pé’, de bicicletas, motocicletas, facilitar os acessos aos morros, instalar redes locais de permeabilidades, promover o transporte aquaviario, produzir uma regulamentação dos serviços tipos Uber e Taxis, controlar as pontes, e por fim, implantar um sistema de transporte publico, tipo VLT
4.    E finalmente, mas não por último, cabe planejar e investir em um plano de habitação e urbanização metropolitano, com o objetivo reduzir as condições de desigualdades sociais e urbanas.
Para os céticos, cabe lembrar que todas as previsões garantem que a metrópole terá estabilizada a sua população na década de 2030, daqui a dez anos, e teremos de prover e viver em uma cidade com mais idosos, menos jovens, onde superados os momentos críticos das migrações rural das década de 1970 e 1980, haverão as condições para qualificar a vida urbana, com a produção de moradias e serviços públicos para todos, melhores e com maior qualidade de serviços.
E, por fim, não podemos esquecer que qualquer ação deve se subordinar ao nosso compromisso de participar da luta em defesa do planeta e de enfrentamento do aquecimento global, afinal pode sobrar a suas consequências para nós moradores costeiros.


Kleber Frizzera
Março 2020

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Carnaval 2020


A cidade ensinou-me infinitos temores:
Multidões, uma rua me sobressaltaram,
Uma ideia, outras vezes, flagrada num rosto.
Sinto ainda nos olhos a luz traiçoeira
Dos milhares de postes nas grandes calçadas.
Cesare Pavese

Eu desfruto de tanto belo e vivo em utopias
Hegel

Carnaval
A cidade toda se movimenta, se agita, jovens e velhos se agrupam, se divertem, em festas, nas ruas, em blocos e desfiles, para experimentar e comemorar algo em comum.
A vida?
Liberados do cotidiano, do trabalho que cansa, da educação que disciplina, das disputas que exaurem a vontade, das práticas sociais que ordenam o corpo e definem os seus limites, homens e mulheres experimentam as fronteiras dos prazeres, dos gozos e das alegrias coletivas.
Nestes momentos, as experiências sensoriais, estimuladas pelas bebidas e comidas, envolvidas pelas danças e músicas, pelos contatos físicos, roubados beijos e olhares temporários, valem mais que a posse dos objetos.
Mas seria o envolvimento total com o prazer fugaz uma forma imposta de consumo, um gasto inútil de uma experiência rápida e superficial, um envolvimento pessoal com um evento passageiro que não deixa ou não fixa nenhum traço significativo?
Para Peter Glotz, o entretenimento possivelmente guarda uma  relação com a Paixão que conduz `a morte: e completa, a condenação do  entretenimento, da distração e da arte ligeira tem raízes religiosas.
Byung Chul Han, filósofo coreano, procura entender o aumento do tempo dedicado ao entretenimento no mundo atual, de outra maneira, quando, supõem ele, trabalho e ócio estão perdendo sua barreira impermeável e se mesclam, como escreve no seu mais recente livro, 2018, Bom entretenimento.
Afirma o filósofo, a história do Ocidente e’ uma história da Paixão: as culturas com tradição crista’ a entendem como um sofrimento insuportável e inevitável que só ao final dos tempos será recompensado. A Paixão, transferida ao trabalho e ao esforço cotidiano, tem sido entendida como uma oposição, ao largo da história, aos conceitos e as experiências corporais do prazer e do ócio.
O entretenimento e as muitas formas do carnaval podem parecer uma decadência para a sociedade, mas são realmente tão distintos o puro absurdo do jogo ao puro sentido da Paixão?
Para alguns estudiosos, a universalização do entretenimento surge modernamente com a regulação do trabalho, que inventa, normatiza, e se opõem o tempo do ócio, sem o qual não haveria um momento próprio para a diversão, um privilégio anterior exclusivo da aristocracia, uma classe que não trabalhava. O entretenimento seria um conjunto de atividades com que se preenche o tempo livre da rotinas e das regras do trabalho.
No mundo atual, buscam-se cada vez mais excedentes de tempo que liberem a vida da coerção e a desvinculação com o constrangimento dos lugares e das disciplinas são elementos de uma aproximação com uma utopia urbana, do gozo e da pura diversão, diz Adorno, uma forma que a aproxima da arte, que liberada, seria não só o seu oposto, mas também o extremo que a toca. Uma utopia e’ próxima da arte, e, Arte e’ paixão, e apenas a paixão tem acesso a transcendência, escreveu George Steiner, falecido recentemente.
E Byung Chul Han propõem, provoca :
O entretenimento se eleva a um novo paradigma, a uma nova forma do mundo e do ser. Para ser, fazer parte do mundo, e necessário ser algo que entretém. Só o que resulta em entretenimento é’ real ou efetivo. Não e’ mais relevante a diferença entre a realidade fictícia e real,...a realidade parece ser um efeito do entretenimento.
Paixão e entretenimento são irmanados?


Kleber Frizzera
Fevereiro 2019

sábado, 4 de janeiro de 2020

feliz 2020


Viver em comum

A cidade ensinou-me infinitos temores:
Multidões, uma rua me sobressaltaram,
Uma ideia, outras vezes, flagrada num rosto.
Sinto ainda nos olhos a luz traiçoeira
Dos milhares de postes nas grandes calçadas.
Cesare Pavese

Quais dimensões, densidades habitacionais e de usos públicos devem ter as nossas cidades e metrópoles para que possam gerar um ambiente estimulante `a experiência e ao conhecimento humano, através dos contatos pessoais diretos, uma vida em comum, exercida cotidianamente na variedade de pessoas e eventos?
Segundo Georges Minois, em História da solidão e dos solitários, no mundo clássico latino : A solidão e’ a condenação, o exílio, o castigo, a morte. A vida e’ a cidade, a urbanitas, a multidão, o circo, as termas, o fórum, o senado, o teatro, o tribunal, o mercado, as orgias, as vistas, os templo. A vida pública, no ocidente, desde então, se fez, se realiza no compartilhamento político, cultural e social das cidades e dos seus equipamentos construídos, embora para Petrarca, devemos nos retirar para o mais longe possível das multidões e da agitação da cidade.
Em Fedro, Platão confessa outro entendimento: Amo aprender, como sabes. Ora, os campos e as arvores não aceitam me ensinar nada, enquanto e’ isto que fazem os homens que estão na cidade. Juntos e próximos, diante aos diferentes, segundo ele, temos as oportunidades de aprender em conjunto, acessando novas experiências, acontecimentos limites-que colocam em questão o ser do conhecido, do belo e do bom-, e se realizar plenamente através da incorporação do outro.
Para os que estimam os prazeres urbanos, e’ necessário que as urbs possuam habitantes em número, diversidade e em situação de mobilidade e proximidades tais para potencializar e (con)viver seus lugares dos conflitos e belezas, de visibilidade do estético e do trágico, nós de muitas trocas, encontros e desencontros.
Para Felix Guatarri, O alcance dos espaços construídos vai então bem além de suas estruturas visíveis e funcionais. São essencialmente máquinas, máquinas de sentido, de sensação, ... máquinas portadoras de universos incorporais ...que podem trabalhar tanto no sentido de um esmagamento uniformizador quanto no de uma re-singularizacao liberadora da subjetividade individual e coletiva.
Há uma intensa ambiguidade neste desejo humano de busca de sensações e acúmulos de sentidos. Amamos nos perder na multidão, assustadora de um lado, atraente e misteriosa de outro, admirando anônimos passantes, mas também recuamos, inseguros, diante da massa urbana impessoal, de mil caras e falas ruidosas. Para aprender a complexidade do mundo e’ exigência estarmos em companhia, corpos e mentes atentos, enfrentar a presença das múltiplas faces, curiosos diante das frestas, cortes materiais e simbólicos, onde se instalaram as marcas dos passados e dos anúncios de imprevistos futuros.
No entanto, são poderosos os instrumentos virtuais de captura de dados pessoais, que processam nossos movimentos e desejos, e instalados em aplicativos e algoritmos, manipulam prazeres e emoções.
Nas metrópoles, movendo-se por entre a rugosidade das construções e dos corpos, expondo nossos sentidos aos olhares e aos gostos vizinhos, à impressão direta das imagens e da multidão, poderemos ultrapassar o mundo virtual que congela, reduz, simplifica?
Conseguiremos superar as máquinas de poder, dotadas de crescentes inteligências artificiais, que antecipam `a distância vontades pessoais e assumem o controle dos fatos, determinando as ações futuras e as próprias resistências libertadoras?
Quantos olhares singulares enfrentar e aceitar para se aproximar do fundo escuro das coisas, ao segredo dos sofrimentos e alegrias, para sermos melhores, compassivos e demasiadamente humanos?

Quando tudo e´ publico, visível,
quando tudo e´ transparente, ruidoso, exposto, acelerado,
o segredo ama o silêncio.
Publicado em Movimentoonline.com.br
Kleber Frizzera
Dezembro 2019

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Uma vida urbana



Gastown e’ um bairro histórico da cidade de Vancouver, Canada’. Um bairro compartilhado por drogados e sem teto, por jovens millennials, onde circulam muitos turistas. Um bairro cult.
Nele habitam e circulam gente comum, artistas, estudantes, trabalhadores, de várias origens, etnias e nacionalidades, latinos, árabes, muitos asiáticos, chineses na sua grande maioria, 30% da população da cidade.
Em suas ruas e becos, entre edifícios em tijolos e estruturas de madeira, do final de século XIX e início do XX, convivem  diversidades sociais, econômicas e culturais de uma cidade metrópole múltipla, internacional, cosmopolita com 2.500.000 habitantes e um PIB per capita de US$ 44,337.
A Grande Vitória se aproxima de 2.000.000 habitantes para um pib per capita que não chega a US$ 7 000 dólares/ano. .
Nos interiores dos antigos edifícios industriais e armazéns restaurados, jovens moradores ocupam lofts e nos térreos, lojas de móveis, roupas e lembranças turísticas, ateliers e brechós, pizzarias, cafés e salões de beleza, misturam-se `as dezenas ou centenas de moradores sem tetos, jogados nas calçadas, acumulados em tristes filas nas portas de missões religiosas, de hotéis baratos, mergulhados em becos escuros.
Desenganados, desiludidos, desalentados, empurram carrinhos de compras entulhados de coisas, objetos em frangalhos, restos de roupas, embalagens e comidas, consumidos pelas drogas e pela solidão, caminhando curvados apoiados em andadores, homens e mulheres, rostos e gestos cansados, pedem esmolas, apontando aos transeuntes seus copos sujos de papel.
Gastown e’ o sítio original, o bairro onde se originou a cidade de Vancouver, implantada junto ao porto, ponto final da ferrovia Transcanada’, terminada em 1887, que atravessou todo o país, mais de 5 000 km, do oceano Atlântico ao Pacífico, do leste ao oeste.
Neste local, junto ‘as crescentes atividades portuárias, foram se abrigando os novos moradores que buscavam fazer fortuna no Oeste, do ouro, da madeira, das peles, dos negócios de lucros rápidos.
Com a expansão da cidade, inicialmente devido ao comércio com o Oriente e com a segunda guerra mundial, uma parte dos cais, as primitivas indústrias e armazéns, moradores e negócios foram se deslocando para outras localizações e Gastown e seus belos edifícios entraram em decadência.
Um processo de décadas renovou edifícios e vias públicas, atraiu turistas e novos empreendimentos foram ocupando novas ou antigas construções, tornando a região um ponto de atração turística.
Hoje, ao observador descuidado, acostumado com outros bairros ou cidades canadenses, higiênicas e homogêneas, a vida diária em Gastown parece estranha. Ao lado de um café, de uma padaria chic , de pubs e seus usuários descolados ou próximo de uma loja de modernas luminárias, utensílios de cozinha ou roupas da moda, grupos de pessoas se instalam precariamente nas calçadas, mal conseguem erguer seus corpos, dormem no meio de objetos descartados pelo consumo da metrópole.
Mas há poucos indícios de insegurança pessoal, roubos ou violências físicas. O Canada’ tem um dos menores índices mundiais de violência, -Em termos de homicídios, por exemplo, o Canadá inteiro registrou 1,8 mortes  para cada 100 mil pessoas em 2017, enquanto o Brasil chegava a 28,5 assassinatos para o mesmo número de habitantes
Por todo o dia, turistas e moradores enchem as lojas e restaurantes, as happy hours são muito animadas e os finais da semana, mesmo com o tempo frio e a chuva fina de outono, estão sempre movimentados, de grupos de jovens, de casais que buscam se encontrar em um bar ou para degustar um jantar em restaurante da moda.
Como avaliar este ambiente urbano?
Para quem esta’ a três semanas convivendo com estes eventos e lugares, sou possuído por sentimentos ambíguos. E se de um lado me encanta a variedade das ofertas sensíveis, de uma experiência pessoal diversificada, ambiental e eventual, me angustio com a presença destes corpos lançados as ruas, suas faces envelhecidas e olhos sem focos, vagando desajeitados, curvados, desequilibrados pelas ruas, tornados normais aos passantes indiferentes, que se deslocam para o trabalho, os estudos, os entretenimentos.
Não há uma repressão explícita ao uso das drogas e a política pública de redução de danos oferece assistência social e médica, consumo supervisionado, moradia temporária em hotéis e abrigos, muitas deles dirigidos para mulheres agredidas ou desassistidas.
O uso e venda da maconha está liberada em todo o Canada’, podendo ser adquirida livremente desde o ano de 2018.
Desfio os meus olhares surpresos, indecisos, assustados com tanta tristeza e ao mesmo tempo, admirados com tanta diferença e sofrimentos, surpreendidos com os muitos modos possíveis da vida urbana.


Kleber Frizzera
Novembro 2019

domingo, 15 de dezembro de 2019

Portal sul


Portal sul,
do Príncipe

As melhores e as mais visitadas cidades do mundo têm se esforçado, nas últimas décadas, em (re)qualificar os seus espaços urbanos, buscando fornecer, aos seus moradores e turistas, ambientes construídos e naturais que ofereçam um conjunto das seguintes condições mínimas:
1.     Mobilidade pessoal, segura e confortável, permitindo o acesso a todos os setores urbanos, com prioridade aos deslocamentos dos pedestres, das bicicletas e através dos transportes públicos de grande capacidade.
2.    Uma provisão de densidades adequadas, populacional e de múltiplos usos, que propiciem uma variedade de ocupações e apropriações e possibilitem a livre expressão de manifestações culturais, étnicas, religiosas e politicas..                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             
3.    Uma rede de conecções físicas e virtuais, através de linhas de permeabilidades e interligações dos bairros  e pontos urbanos  de forma a superar e vencer as segregações urbanas de todo o tipo, de ordem social, econômica e ambiental .
4.    A valorização, o destaque e potencialização dos lugares do patrimônio coletivo, artístico e  histórico, das  paisagens naturais, dos usos e costumes tradicionais e das práticas sociais e culturais,  
5.    A articulação de investimentos públicos e privados na produção de edifícios de habitação social, de espaços coletivos, de serviços de saúde, educacionais, de entretenimento e para a instalação de novos negócios e empregos,

Conforme propõem Richard Sennett, no seu último livro, Construir e habitar, e’ preciso pensar uma cidade que atualize cinco formas abertas, sincrónicas, interrompidas, porosas, incompletas e múltiplas, que não esgotem todas as possibilidades de apropriação de experiências produtivas e gratificantes, mas sejam suficientes para a prover e assegurar a presença pública das pluralidades sociais e o estímulo a eventos e acontecimentos  significativos.
Uma cidade aberta deve conter espaços sincrônicos, onde convivem as diferenças, sustenta projetos que criam lugares com determinados valores e particular caráter, mas que devem ser porosos, como uma membrana, que ligue e contate diferentes práticas e comunidades, e que, ao mesmo tempo, sejam deixados incompletos e inacabados, recebendo iniciativas coletivas e abrigando diversidades urbanas, e onde se possa semear um espaço para o máximo de variação, criação e inovação.
O governo do estado anunciou recentemente um projeto para uma área em Vitoria, conhecida como Portal Sul, resultado de aterros, de um braço de mar, e que ligaram a ilha do Príncipe `a ilha de Vitória. Nestes aterros, de mais de quatro décadas, foram erguidos a rodoviária, o parque Tancredo Neves, o Sambódromo, e algumas instalações industriais, como o estacionamento e áreas administrativas da antiga Flexibras, atual Tecnip, junto a ponte seca.
O aumento do movimento de pessoas e cargas, vindas da ponte Florentino Avidos e da segunda ponte, tem impactado negativamente a área, hoje em boa parte com terrenos vazios e construções deterioradas, e tem cobrado dos setores públicos uma solução adequada para a sua reinvenção de formas e de usos, associada `a implantação de modos físicos e tecnológicos para apoiar a mobilidade local e metropolitana.
A iniciativa estadual, neste sentido, neste momento, e’ bem vinda, mas precisa ser avaliada, criticada e discutida publicamente para não perdermos a oportunidade da produção das melhorias urbanas que apontem e ajudem para um futuro de uma cidade menos desigual e mais democrática
Apontar algumas críticas, que explicitem as ausências ou faltas da proposta apresentada, e’ uma pequena contribuição ao debate necessário,  para que se possa rever o projeto, de porte rodoviarista, submetido à lógica do carro privado, se impondo apenas como um meio de passagem de veículos pela área, negando e sufocando algumas potencialidades locais.
Gostaria de destacar as seguintes faltas ou ausências notadas na proposta publicada:

1.    Uma conexão adequada dos dois lados do aterro, ligando e articulando, principalmente para o pedestre, a ilha do Príncipe ao morro do Quadro e do Alagoano, a avenida Alexandre Buaiz `a avenida Santo Antônio,
2.    Uma proposta de expansão e requalificação do mercado da Vila Rubim, lugar tradicional de abastecimento e sociabilidade dos moradores da cidade de Vitória,
3.    A previsão de implantação de um sistema de transporte coletivo de média capacidade, tipo BRT ou VLT, que conecte o centro de Vitória `a Cariacica e Vila Velha
4.    Um proposta de geração de espaços construídos, para abrigarem edifícios de habitação social, serviços públicos e privados, comércios e instalação de novos negócios,
5.    E finalmente uma
qualificação paisagística  e ambiental através da implantação de um parque linear, que ligue o mercado da Vila Rubim `a rodoviária e ao parque Tancredo.

Kleber Frizzera
Dezembro 2019


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terça-feira, 12 de novembro de 2019

As desigualdades sociais e as cidades


Vancouver 1


Os últimos dados publicados pelo IBGE, expuseram o aumento do número de pobres e miseráveis no Brasil, atingindo, em 2018, um total de 13, 5 milhões ou de 6,5 % da população, e confirmando uma crescente e alarmante desigualdade econômica e social. Afirma o renomado economista francês Thomas Piketty, em seu recente livro de 2109, Capital e Ideologie, que quando observadas no período 1980\2018, estas desigualdades sociais econômicas voltaram a crescer também na maior parte dos países e regiões do planeta, se configurando como umas das questões mais inquietantes que o mundo se confronta no século XXI, ao lado dos desafios das mudanças climáticas e dos movimentos migratórios.
Segundo Piketty, os índices e os níveis de desigualdade no Brasil se assemelham aos dos países da África Subsaariana, da Índia e do Oriente Médio, esta sendo a região mundial mais desigual, todos países e regiões onde 1% da população, os mais ricos, tem ampliado a captura da maior parte, acima de 50%, da produção nacional e de eventuais crescimentos econômicos.
Quer sejam estas situações impulsionadas pelas receitas econômicas neo liberais, comprometidas com o capital financeiro, como aconteceu no Chile e na Argentina, ou pela acelerada expansão das novas tecnologias, de gestão, distribuição e produção, que ampliam o desemprego estrutural e o trabalho precário, as muitas desigualdades e a consequente concentração da riqueza tem impactado fortemente a vida nas grandes metrópoles.
Nelas, principalmente nas grandes aglomerações, onde imigrantes são atraídos por melhores e maiores possibilidades de sobrevivência pessoal, e para onde se movem os donos das grandes riquezas em busca de maiores lucros para os negócios imobiliários, as desigualdades e as segregações urbanas tornaram-se mais visíveis e mais trágicas. Centenas de milhares de moradores sem teto ocupam as ruas e praças de cidades, de São Francisco, Nova Yorque a São Paulo e milhões de seus moradores e trabalhadores não tem acesso a uma moradia digna devido ao brutal encarecimento dos custos das habitações, do transporte público e dos serviços públicos básicos.
Embora algumas administrações municipais, como Londres, Vancouver e Paris, tenham tentado criar normas e leis que buscam reduzir ou impedir a pressão dos grandes capitais internacionais na hiper valorização dos imóveis urbanos, deixados vazios `a especulação, ou deslocados para aluguéis de temporada, tipo Airnb, nem sempre conseguiram ampliar o acesso dos grupos mais pobres e mais jovens `as moradias qualificadas e aos melhores lugares e ambientes urbanos.
No Brasil, os que mais sofrem habitam favelas, edificações ou loteamentos clandestinos, compartilham apartamentos cada vez mais reduzidos ou no limites, vivem nas ruas ou em ocupações, enquanto os setores médios se refugiam em condomínios fechados, tornando mais evidentes e visíveis os impactos físicos e sociais que as desigualdades têm gerado nas cidades.
Se somarmos as estas tristes situações, os custos e os tempos gastos na mobilidade diária, no transporte público e as duras condições impostas pelo trabalho precário ou parcial, e’ cada vez mais difícil, difícil imaginar, propor e construir uma vida urbana mais justa, acessível, igualitária e democrática.
Na conclusão de seu livro, Thomas Piketty, ao criticar as justificativas institucionais contemporâneas das desigualdades, nos convida a colocar no centro dos debates atuais a questão da justiça, social, fiscal e climática, da propriedade justa, das fronteiras e da educação justas, e de um desenvolvimento sustentável, através de uma troca de conhecimentos, de experiências, no respeito ao outro, `a diferença e `a deliberação democrática.
Neste quadro de preocupações, as cidades brasileiras, onde habitam mais de 80 % da população nacional, tornam-se necessariamente o campo privilegiado das discussões e disputas dos projetos de sociedade, onde o futuro das condições igualitárias de acesso aos bens materiais e simbólicos urbanos, irão definir as condições plenas da vida comum e extraordinária, de todos nós e da sobrevivência do planeta.

Kleber Frizzera
Novembro 2019

publicado em Movimentoonline.com.br