domingo, 20 de outubro de 2019

Montreal 2. Diversidade urbana



A diversidade social e´ atualmente uma das marcas distintivas de Montreal.
A cidade foi sendo construída por várias levas de imigrantes, franceses, ingleses, escoceses, irlandeses, de várias origens do leste europeu, e recentemente, de sírios, árabes, libaneses, haitianos e chineses que a compartilham com uma imensidão de estudantes, inclusive brasileiros, oriundos de todas as partes do mundo. 
Montreal aprendeu a conviver e respeitar as diferenças linguísticas e as multiculturalidades de seus moradores, além de revalorizar a história das primeiras nações, que ocupavam o território antes da chegada dos europeus. Hoje 40 % de sua população falam três idiomas, inglês e francês, línguas oficiais do Canada e mais uma língua de sua etnia ou nação, e 10 % falam quatro ou mais línguas.
A múltiplas diferenças étnicas e nacionais, e opções de sexualidades, práticas sociais e religiosas, movem um caldeirão de comportamentos que esta´ criando uma economia moderna e uma sociedade plural, onde a diversidade é uma das bases da igualdade e do desenvolvimento. 
Evidentemente não faltam resistências dos que se acham ameaçados em seus valores, mas a situação da economia, com alta oferta de empregos, acaba reduzindo a dimensão destes discursos xenófobos.
Enquanto isto, em alguns países, inclusive no Brasil, muitos se manifestam por uma sociedade desigual e subordinada a um único quadro de valores religiosos e familiares, condenando e discriminando as diferenças, de todos os tipos, e adotando uma pauta moral, atrasada e ineficiente nas competições internacionais da economia. 
No Brasil, vindo de autoridades públicas, estas afirmações acabam penetrando em todas as camadas sociais, incentivando os preconceitos e manifestações de ódios.
Evidentemente que em um país com muito menos desigualdades econômicas, como o Canada´, com reduzidos índices de violências, pode parecer mais fácil construir uma sociedade com uma convivência social mais colaborativa e solidária. Mas não basta nem e´ suficiente as suas vantagens econômicas, como o exemplo na manutenção de fortes preconceitos raciais e sociais, em um país rico como os Estados Unidos.
Uma das razões da diversidade vivida em Montreal inicia-se com um elevado investimento na educação superior e pesquisa instaladas, boa parte, no centro urbano. Hoje, milhares de estudantes estrangeiros mudam-se para Montreal para aprofundar seus estudos, contribuindo para uma grande presença de jovens de todas nacionalidades nos lugares públicos. Após os estudos, muitos permanecem, atraídos pelos empregos de alta tecnologia e pela qualidade de vida urbana
Canada´ e Montreal sempre acolheram refugiados políticos e econômicos de várias nações, desde irlandeses empobrecidos no século XIX e XX a sírios e árabes perseguidos no século XXI, e novos mecanismos de estímulos a investimentos, tem trazido um grande número de moradores asiáticos, principalmente chineses. 
Como professor e arquiteto tenho estudado se os aspectos físicos de uma cidade e os comportamentos públicos de seus moradores revelam e contribuem para partilhamento de uma experiência comum e para a convivência pacífica de uma diversidade social.
Mas seremos capazes de reconhecer estas qualidades nos usufrutos de lugares públicos e nas faces de suas construções?
Preliminarmente, nas poucas semanas que estou em Montreal, me surpreendo com a multiplicidade das vozes, gestos e vestimentas e com a extrema qualidade de seus lugares de uso comum, ruas, praças e parques, que se oferecem bela e generosamente ´a vida urbana.
Novos edifícios, convivendo com construções históricas, aumentam a densidade populacional e de serviços no centro, e junto com agradáveis e extensas praças e parques, parecem também potencializar novos usos e a presença de mais e diferentes pessoas nas vias públicas.

Reduzir as desigualdades e as segregações urbanas e sociais, investir fortemente na educação e na pesquisa, atrair jovens do mundo, respeitar as diferenças e qualificar os espaços urbanos, poderão contribuir para tornar a cidade da Grande Vitoria, mais diversa, feliz e igualitária?

Kleber Frizzera
Outubro 2019
publicado em movimentoonline.com.br

sábado, 12 de outubro de 2019

Montreal 1 Reinvenção urbana



27 de setembro de 2019
Centenas de milhares de pessoas, na maioria jovens, saem ´as ruas da cidade de Montreal, em uma massiva manifestação em defesa do planeta, exigindo ações imediatas no enfrentamento do aquecimento global e das mudanças climáticas.
Mais de 10% da população da região metropolitana de Montreal estiveram nesta manifestação.
Os cartazes são improvisados, feitos a mão pelos manifestantes, revelando uma pluralidade de expressões pessoais e posturas políticas, e um conjunto múltiplo de desejos e propostas, generosos e solidários.

Das 20 melhores cidades do mundo para morar, conforme QUALITY OF LIVING CITY RANKIG. 2019,quatro delas estão no Canada´, Vancouver, Toronto, Otawa e Montreal.

Montreal Metrópole, possui uma população em torno de 4 milhões de habitantes, fundada a 377 anos, se desenvolveu como cidade-porto. porto de transbordo, devido as corredeiras, no Rio São Lourenço, via de ligação entre o Atlântico e as férteis terras em torno dos grandes lagos. Margeando este rio e uma infinidade de canais de navegação e ferrovias, construídos no século XIX, foram implantadas inúmeras indústrias, que suportaram o grande crescimento econômico desta região dos Estados Unidos e do Canada´, ate´ as década de 1980\ 1990.
Nas últimas décadas do século XX, Montreal atravessou profundas crises, econômicas, pela desindustrialização, e devido a gestão fiscal, e precisou reinventar as suas bases produtivas para retomar o desenvolvimento econômico, urbano e social.
O resultado desta renovação pode ser observado nas infraestruturas públicas e ambientes urbanos- renovados, ampliados e nos investimentos imobiliários, para atender novos e jovens moradores, acomodar turistas e estudantes, e a locação de negócios mais diversificados, ligados aos novos dinamismos da economia mundial.
Do ponto de vista urbano, as principais ações foram as seguintes:
1.            Renovação de edifícios, galpões industriais e de áreas degradadas, localizadas nas margens dos rios e dos canais de navegação, próximas do centros urbano.
2.            Adensamento construtivo e populacional da área central, pela verticalização, redesenho de quadras e das legislações urbanas, incentivando os usos mistos e de pequena escala.
3.            Investimentos em qualificação de vias públicas, calçadas e parques, estimulando os deslocamentos a pé e de bicicleta e o usufruto cotidiano de lugares próximos das residências e dos trabalhos.
4.            Estímulo ao turismo e a cultura, preservação do patrimônio construído, proteção das paisagens naturais e implantação de novos equipamentos culturais e de entretenimento.
5.            Melhoria e ampliação do sistema de transporte público de massa e de outros meios de deslocamento individual.
6.            E o fortalecimento dos programas sociais, de inclusão social e econômico, de emprego e renda, acesso aos serviços públicos e respeito a´ diversidade étnica, cultural e social.

Podemos reconhecer os sinais visíveis destas ações, quando caminhamos na cidade de Montreal, observando;
1.            Uma alta densidade de pessoas nas ruas- jovens movimentando-se a pé e bicicleta-, e uma alta intensidade de ocupação de bares, ruas e parques, nos finais de tarde e finais de semana 
2.            A presença de grande número de novas construções expondo novas relações formais e estéticas com os elementos construídos, com a forma urbana tradicional e edifícios históricos
3.            A abertura de novas vistas e eixos de circulação, uma maior permeabilidade em áreas anteriormente fechadas, onde fábricas, armazéns e viadutos, eram obstáculos aos movimentos, aos acessos e os olhares dos pedestres.
4.            A presença pública das faces de múltiplas etnias e nacionalidades e da oferta de suas expressões culturais, como serviços e comércios especializados.
5.            A garantia de segurança pessoal na experiência urbana, nas relações humanas entre os corpos e pessoas nos espaços de uso comum.
Montreal e´ uma cidade metrópole completa.
Completa pelo direito ´a manifestações, políticas, ambientais, ´a segurança na vida urbana, oferecendo lugares belos, praças e parques atraentes, convidativos aos passeios, aos encontros, aos exercícios, as caminhadas.
Também como uma metrópole completa, em Montreal se partilha o passado, seus sítios históricos, suas paisagens e seus edifícios restaurados.
De suas muitas diversidades, se faz também uma metrópole, na convivência de tantas caras, origens, sexualidades, tantos corpos e vestimentas diferentes, das muitas falas e línguas que ocupam os ares, movem as conversas e as narrativas.
A Grande Vitória conseguira´ ser um dia uma metrópole completa?

Kleber Frizzera
Outubro 2019
Publicado em movimentoonline.com.br
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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Experiência e cidade



Segundo Josep Maria Montaner, crítico de arquitetura catalão, a visão feminista de revalorização da experiência  sensorial e corporal das mulheres, ao negar as pretensões machistas e masculinas de imposição de formas e normas de pensamento, de modos de vida e comportamento supostamente universais, resgata uma nova subjetividade própria, nômade, “através da afirmação da complexidade e da diferença, dos afetos e dos desejos, da realidade e da vida cotidiana e trabalho reprodutivo”.

Mas haverá uma singular apropriação feminina a tensionar e transformar os espaços públicos da cidade, quando os seus corpos, tornados livres, suas manifestações gestuais, verbais e de vestimentas rompem os limites do controle simbólico e real dos olhares dominantes? 

O aumento da violência simbólica e física contra os corpos femininos não seria resultado da resistência masculina a essas mudanças?

Vivemos uma sociedade da experiência, que segundo o filósofo Slavoj Zizek, é uma das características definidoras do capitalismo pós-moderno: “A mercantilização direta da nossa experiência, quando o que compramos no mercado é cada vez menos produtos e objetos materiais e cada vez mais experiência de vida, de sexo, de comer, de comunicar, de consumo cultural, de um estilo de vida, ...,consumidores de nossas vidas..” . Em última análise, afirma, “nós compramos o tempo de  nossas vidas”, como um desejo imposto de buscar transformar a nós mesmos em uma obra de arte Premium.
Anúncios de viagens, de restaurantes, carros, das últimas modas, de roupas e adereços, comportamentos e móveis, propagandas de todos os tipos de objetos e serviços, contêm sempre, como plus, essa oferta: o acesso privilegiado a uma experiência corporal única, particular a ser oferecida pelas coisas, pelos alimentos ou lugares turísticos, suas satisfações, prazeres e  lembranças inesquecíveis a serem registradas em fotos, corpos, músculos e espíritos.
Para o filosofo francês Gilles Lipovetsky, a ideia de um marketing sensorial produz como um “reencantamento do mundo, que conduz a viver a cidade [...], como um parque de diversões, que e´ consumido com a paixão e o prazer devidos”, teatralizando e espetacularizando a vida ordinária, e assim, “a cidade gera novas experiências, suscita emoções, cria sensações”. Busca-se uma atmosfera especial, de um contínuo entretenimento, e mais do que nunca, o mundo hipermoderno é “o da estética mercantil e do comércio consumista que invade e reestrutura o espaço urbano e arquitetônico”.
Ao mesmo tempo, a expansão das experiências pessoais propiciadas pela realidade virtual em jogos e viagens, ap, parece fortalecer o individualismo, estimular o prazer solitário e o hedonismo descarnado, em que não mais precisamos nos debater diretamente com a matéria das coisas para o desfrute da vida.
Ao investir na produção de experiências virtuais ou reais, múltiplas, diversificadas e ofertadas a gostos e apreciações individualizados, tendemos a ultrapassar a satisfação imediata de necessidades básicas, biológicas ou sociais, potencializando uma contemplação e um gozo sensível, afetuoso e criativo? 
Ou, ao contrário, nos mantemos subordinados a uma lógica capitalista, inserindo a vida e o afeto humano em um mercado volúvel, masculino, violento e consumista?

Nestas complexas e atuais oposições, a crescente presença feminina nos espaços públicos, ocupando e transformando, de múltiplas formas, com seus corpos e desejos os lugares do mundo, parece romper esta dicotomia, revelando e propondo novas práticas de aprendizado e de convivência sensível e amorosa humana.


Kleber Frizzera
Setembro 2019

sábado, 14 de setembro de 2019

Viver e morar, a partir do centro


O governo do estado esta´ transferindo boa parte das instalações de suas secretarias para o centro da cidade de Vitória, retomando uma posição física e simbólica que ocupou por séculos, desde quando o atual palácio Anchieta, deixou ser propriedade dos jesuítas, expulsos do Brasil, pelo Marques de Pombal, em 1757. 
O governador Jerônimo Monteiro, 1908\1912, demarcou definitivamente este símbolo, através da reconstrução da antiga residência e igreja de Santiago e da escadaria Barbara Lindbergh, em estilo eclético, tornando visível uma nova postura política, assumida, após a proclamação da república, pelo poder local e a sua burocracia estatal, instalada no centro.
Por todo o século XX, a imponente escadaria e as duas novas fachadas do palácio, em cima do outeiro, uma voltada para o porto, a avenida Jeronimo Monteiro e sua riqueza comercial, e a outra de face ao poder Legislativo, instalado sobre a igreja da Misericórdia, ao Judiciário, na rua Pedro Palácios e  á catedral de N.S. de Vitória, deixaram expostas, em marcas urbanas e arquitetônicas, os detentores dos poderes, materiais e simbólicos, do estado do Espirito Santo. 
Aos seus pés, no parque Moscoso, nas ladeiras da cidade alta e em torno da praça Costa Pereira, foram se instalando as renovadas moradias e negócios dos comerciantes, funcionários públicos e proprietários rurais, enquanto os trabalhadores, portuários, comerciários e da construção civil, se agruparam do morro do Quadro ao bairro de Santo Antônio.
A partir destas posições centrais relativas, se formularam, se debateram e se enfrentaram os projetos de desenvolvimento, econômico, cultural e social do estado, suas realizações e fracassos.
O afastamento dos órgãos do governo estadual e dos moradores de classe média do centro histórico, foi simultâneo, a partir da década de 1970, com a concentração fiscal e decisória do governo federal e da expansão do poder das grandes empresas, industriais exportadoras, que com o tempo foram transferindo seus centros decisórios para fora do estado e mesmo do país. 
O espalhamento das localizações dos órgãos públicos estaduais acompanhou os seus esvaziamentos institucionais e suas incapacidades de formulação e implantação das políticas públicas, de infraestrutura e sociais, substituídas, no tempo, por uma austeridade financeira vazia, sem frutos ou resultados reais para o estado e a população.
A transferência anunciada das secretarias estaduais pode representar, mais que uma postura simbólica, uma decisão política de retomar o protagonismo da esfera pública no sentido de, a partir do centro, gerar ideias, debater iniciativas e desenvolver ações comprometidas com uma sociedade capixaba, mais justa e igualitária.
Dois desafios se apresentam  para este novo momento. 
Constituir um processo democrático, amplo, que inclua a participação decisória das muitas diferenças e particularidades locais, e capaz de acionar e impulsionar um projeto estadual  inclusivo, econômico e socialmente. Um projeto, flexível para os novos tempos, mas determinado para enfrentar as desigualdades sociais e regionais, e que aponte e invista em um desenvolvimento diversificado, atento ´as possibilidades das novas tecnologias e dos processos criativos e ´a crescente necessidade de oferecer saúde, educação, emprego e renda a todos os cidadãos.
Um outro desafio, de caráter urbano, será dotar o centro histórico das condições ambientais, para que, acompanhando as novas secretarias, seja repovoado, por habitações sociais e destinadas para jovens, que abrigue lugares potencializadores de práticas sociais e produções culturais inovadoras e atraentes. Neste contexto, preocupante a informação da transferência da empresa PicPay, do centro de Vitoria para Av Leitão da Silva.
As cidades de sucesso, em todo o mundo, oferecem aos seus cidadãos, um ambiente seguro, adequado, múltiplo e aberto, que propicia o contato com experiências sensíveis, corporais e espirituais, estética e eticamente, condições para vida privada e pública, feliz e democrática.
Estaremos a partir do centro, produzindo as condições urbanas, políticas, econômicas e culturais de um outra metrópole e um outro Espírito Santo?

Kleber Frizzera
Setembro 2019
Publicado em Movimentoonline.com.br

sábado, 31 de agosto de 2019

Andando

Andando
E´ preciso arrancar alegria ao futuro.
Maiakovski

Perder-se em uma cidade é uma forma amorosa de conhecimento, um conhecimento ambulante, uma maneira doce de se aproximar de suas complexidades, de suas diferenças, identidades, deixando-se levar pela curiosidade, pelo acaso, pelos contatos surpreendentes com os pequenos acontecimentos e com as estranhas marcas inscritas no chão e nas paredes.
Quando andamos não o fazemos apenas para chegar a um destino, diz o escritor português Afonso Cruz, e nossa caminhada não se mede pela distância, mas sim pelo modo como a paisagem nos comoveu. Pode não ter razão, objetivo, destino, utilidade e é exatamente aí que reside a riqueza do passeio
Isto só é possível se mergulharmos nas cidades de forma lenta, deixando-nos atrair por leves indícios, atentos aos pequenos sons, ruídos e falas que extravasam das janelas entreabertas no calor dos dias. Cantos atraem marinheiros de terra firme, que se deixam levar, encantados, ´a ruas e escadarias sem fins, e logo afastam, ao longe, os barulhos da cidade enlouquecida. 
`A noite, no escuro, espectros deslocam-se de seus esconderijos, revelam, em silencio, os seus segredos temporais ao flaneurcaminhante, ao amigo das sombras e dos mistérios.
Caminhando, experimentamos múltiplas sensações, seja numa peregrinaçao  longa, um estímulo a contemplação da natureza ou curta, um contato com o bairro, quando vamos a padaria. Andando, cheiros anunciam almoços e jantares, o sabor de cana e do pastel, distorções e reflexos desafiam as razoes iluministas, divergem os entendimentos dos olhares,sensíveis tatos importam prazeres, ao gozo, a cada ladeira e paralelepípedo palmilhado.
Não temos mais tempo para tais distrações, submetidos à tirania da velocidade, da pressa, do tempo encurtado. Acelerados, o Wazenos informa a rota mais rápida, de carro, ônibus, bicicleta. A pé, apenas para aqueles que seguem devagar, desacelerados pelo desemprego, desalento, velhice ou aposentadoria, que ocupam os tempos mortos dos bairros e da cidade. E também para crianças e estudantes, que na volta das aulas, apoiam suas brincadeiras nos muros e meio- fios, sem pressa para as conquistas vãs.
Neste mundo contemporâneo, o que importa é a velocidade dos bens e das pessoas. Os “encontros” se resumem a experiências onlinena impessoalidade vivida nos intervalos dos percursos, sem mais abertura para os sentidos e as sensações nos deslocamentos.
Caminhar passou a ser apenas um atributo de saúde, um exercício obrigatório, uma corrida rápida, capaz de prover disposição ao corpo e o espírito, aos domingos e feriados.
O movimento corporal no espaço, diz YI-fu Tuan, precisa se repetir para aprender a navegar, e’ preciso, confirma o poeta, navegar estabelecendo marcos de orientação, em um movimento intrigante da experiência da escala humana, que se da’ no enfrentamento sensível das resistências, como nos labirintos.
Isso mais se torna estranho que nas novas obras e projetos, Av. Leitão da Silva e nos desenhos propostos para a Avenida Vitoria, inóspitas e agressivas, os locais para os pedestres sejam desqualificados, sem árvores, sem dimensões suficientes para uma experiência simbólica, que nos faça, lentamente, apreciar e reconhecer as coisas e as pessoas com quem partilhamos um tempo comum no mundo.
Ps. Os corpos se apresentam, tornam visíveis as suas particularidades e desejos, quando, verticais, se movem e se apresentam na ruas e calçadas.

Kleber Frizzera
Agosto 2019

sábado, 17 de agosto de 2019

Mobilidade na Metrópole


O Governo do Estado anunciou recentemente um investimento de R$ 100 milhões para ampliar a capacidade viária da Terceira Ponte, com a implantação de uma ciclovia e mais duas faixas para a movimentação de veículos.
São evidentes as dificuldades diárias do deslocamento de bens e pessoas entre as cidades de Vitória e Vila Velha. Também são crescentes os custos sociais e o desgaste pessoal dos milhares de trabalhadores e estudantes que fazem este percurso todo o dia. Mas investir no transporte individual será a melhor opção?
As grande cidades e da mesma forma a Grande Vitória estão passando e irão passar por grandes mudanças na mobilidade urbana, causadas, principalmente, pelas alterações dos regimes de trabalho e do acesso virtual aos serviços públicos e privados.
O trabalho em casa, desenvolvido em horários flexíveis, em múltiplos pontos urbanos, e a prática das compras, contatos, ou entretenimento via internet estão, em todo o mundo, modificando hábitos tradicionais. A isto se agregam as mudanças das composições familiares, mais diversas e menores, inclusive com a expansão da crescente vida solitária de jovens e idosos.
Sintomas dessas condições estão presentes no aumento do deslocamento por demanda, através do uso intensivo de aplicativos de aluguel de carros, bicicletas e patinetes. 
O carro individual, na ausência de um sistema da transporte público eficaz e flexível, passou a ser a alternativa das classes médias ou mesmo remediadas, enquanto os mais abastados, podem optar por morar junto aos seus locais de trabalho, comércio e entretenimento.
Estes novos modos de deslocamentos, somados à dispersão das moradias e locais de trabalho, têm impactado na redução do número de passageiros no sistema de transporte coletivo, ainda hoje, na Grande Vitória, limitado apenas aos ônibus, desconfortáveis e pouco flexíveis diante destas transformações. 
Em resumo, a mobilidade metropolitana tende a se desconcentrar dos horários pico e buscar se adaptar às novas exigências do trabalho, cada vez mais precário e provisório e à oferta, cada vez mais dispersa e longínqua dos imóveis de custos acessíveis.
Quais são as alternativas?
Sem dúvida, prioritário é dar continuidade a um processo de planejamento metropolitano, a partir de um documento produzido pelo Instituto Jones Santos Neves (IJSN), que possa articular as ações do estado e dos municípios. 
A médio e longo prazo, com a redução dos índices de crescimento demográfico, poder-se-á pensar em contrair e adensar a metrópole e, reduzir custos e tempos de transporte-estimulando osdeslocamentos não mecanizados-, facilitando os contatos interpessoais e democratizando os acessos aos bens públicos..
Mas a curto prazo, é recomendável utilizar de forma mais adequada a superestrutura da terceira ponte, quem sabe aproveitando uma quinta faixa - já existente- para a implantação de um sistema de transporte – possivelmente um VLT -, mais confortável e ambientalmente responsável. Ao ligar a área-central de Vila Velha à Praia do Canto e Enseada do Suá, este poderá oferecer aos seus moradores, um mais eficiente modo de se deslocar, viver e usufruir a cidade.
Ps 
A transformação da Ceturb em uma companhia metropolitana com a participação dos municípios e usuários pode ser uma boa ideia para unificar e racionalizar a gestão do trânsito, do sistema viário metropolitano, dos transportes públicos, inclusive táxis, aplicativos e assemelhados.
Querem um exemplo. New York.

Kleber Frizzera
Agosto 2019 

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Tempos difíceis.2


Vivemos tempos difíceis, desafiadores, talvez desesperançosos. 
Vivemos um mundo de profundas manifestações de ódios e violências, um mundo de grandes misérias, ocupado por agressivos preconceitos culturais, de gênero, de sexo e cor, um mundo de desigualdades sociais, regionais e econômicas, onde as muitas narrativas, projetos políticos e opções de comportamentos individuais e coletivos confundem e dificultam as compreensões e escolhas pessoais.
Neste tempo, novas tecnologias stão transformando as vidas comuns, impactando cada vez mais a natureza e o construído, gerando tragédias globais no meio ambiente, assustando com o acesso, controle e manipulação das informações privadas e dos dados mais íntimos, e apontando um momento onde cyborgs e robots poderão estar substituindo, em muitas tarefas, os seres humanos, tornados, em sua maioria, pessoas inúteis e irrelevantes, vivendo de precários, temporários e alienados trabalhos e empregos.
No interior das casas, as famílias tradicionais se dissolvem, compondo novas ordens, editando arranjos diversos, de afetos, valores e sexualidades, um mundo privado mais livre e inventivo, mas também de rusgas e confrontos, de violência contra as mulheres e os homossexuais, que ampliam os dissensos e as discórdias.
A virtualidade esta' sequestrando as relações sociais pessoais, afastando as pessoas do convívio dos lugares públicos das cidades e ambientes julgados agressivos, a viver em comunidades fragmentadas, condomínios murados, opondo em desconfiança e rancor, aos outros, vizinhos tornados inimigos, e apenas aproximando, nas redes sociais, os mais semelhantes ou iguais, agrupados em bolhas homogêneas.
Neste mundo tão diverso, entre a globalização e o localismo, nos conflitos entre uma terra sem fronteiras e os grossos muros da separação real ou virtual, em dúvidas entre as verdades e as mentiras, qual serão o papel das edificações e das cidades no século XXI?
O mais importante arquiteto vivo brasileiro, Paulo Mendes da Rocha, nos propõem, ´a contemporaneidade, um conjunto de tarefas para os cidadãos e urbanistas.
A primeira, a mais sensível, e´ pensar, projetar, produzir e viver uma cidade, que ampare, proteja e cuide dos homens e das mulheres. Mas principalmente, cuide dos mais fracos, dos que sofrem injustiças, preconceitos e violências, daqueles e daquelas, que submetidas as imparciais e abstratas regras da vida económica, tornaram-se irrelevantes, inúteis, aqueles que vivem em precárias habitações e que são excluídos da vida publica urbana. Os pobres, negros, as mulheres, as crianças e os velhos, os homossexuais. Os sem teto. 
Mas Paulo Mendes, também nos convoca a assumir a herança histórica da arquitetura e das cidades, das suas técnicas, de suas qualidades estéticas, culturais e humanas, de suas estimulantes experiências espaciais, a se somarem aos conhecimentos científicos e tecnológicos atuais, para fazer e prover os edifícios e os lugares urbanos, das condições objetivas para uma vida digna, igualitária, alegre e feliz. 
E finalmente, nos convoca a devolver às cidades as suas condições democráticas, fazendo melhores os seus espaços públicos, de convivência social, política e cultural, no´s onde as falas, os argumentos, os discursos e as práticas das diversidades possam conviver, debater as suas diferenças e decidir os nossos futuros, de forma democrática.
Uma cidade que instale o comum, que permita gerar novos nomes, práticas e lugares, ocupar as falas que “ trarão `a vida o mundo desconhecido que esta’ a nossa espera, porque esperamos por ele
O sucesso destas tarefas, hoje, se encontram, em boa parte nas mãos das mulheres, que no século XXI, creio, com a sensibilidade, a generosidade e solidariedade, a disciplina e o desejo serão capazes e tem as plenas condições para o seu cumprimento.
Que brilhe os olhos do tigre entre as ruinas abandonadas.

Kleber Frizzera
Agosto 2019