sábado, 9 de maio de 2020

Um erro


O projeto Portal do Príncipe
Se em dezembro/ 2019, o projeto do Portal do Príncipe, proposto pelo Governo do Estado para a entrada sul de Vitória, vinculado a uma visão rodoviarista, já’ se mostrava inadequado para as exigências urbanas e especificamente para o local de sua implantação, após a pandemia do corona vírus, a proposta se mostra como um equivoco muito maior.
Pensadores de todo o mundo, políticos, urbanistas e arquitetos, tem refletido sobre o futuro das cidades, alertando sobre as novas condições e práticas urbanas, em um mundo pós pandemia, e apontando algumas  tendências:
1. A pandemia expôs uma crescente desigualdade urbana, de rendas, empregos e condições de trabalho, e principalmente, denunciou as deficientes condições físicas e ambientais das moradias populares- sem falar dos moradores de rua-, e seus impactos diretos na contaminação e disseminação do vírus. Ao mesmo tempo, cresce o entendimento e a consciência da responsabilidade pública na condução de políticas habitacionais inclusivas, com a reabilitação de imóveis fechados, subutilizados ou abandonados nas áreas urbanas.
2. Não há’ mais dúvidas que o trabalho e o ensino em regime de home office, bem como compras online, tendem a crescer exponencialmente, afetando as movimentações diárias, e, reduzindo o número de viagens dedicadas a estas tarefas, trabalho, ensino e compras. O regime do trabalho 24/7- 24 horas, sete dias da semana-, já e’ crescente, a algum tempo, nas grandes metrópoles, alterando os números, os objetivos e as horas pico dos deslocamentos diários e estas rotinas de mobilidade devem se acelerar também nas metrópoles menores.
3. Muito provavelmente, haverá’ uma reconfiguração das atividades econômicas, a redução da globalização da economia, do comércio exterior, um processo de reindustrializacao local e um esforço para reduzir as dependências nacionais do mercado internacional. A Grande Vitória, fatalmente, será afetada pela diminuição do volume e valores das commodities, e devera’ se esforçar para que novos empreendimentos, tecnológicos ou intensivos de mão de obra, produtores de bens e serviços pessoais e empresariais, materiais e imateriais, compensem e substituam estas perdas futuras de rendas públicas e privadas.
Diante destas três, prováveis possibilidades, as cidades precisam e devem reestruturar, ambiental, econômica e socialmente, a produção, -inclusive através do trabalho colaborativo-, o consumo consciente dos bens e serviços, a mobilidade diária, as práticas de vida cotidiana, privada e pública e a oferta de habitações e ambientes urbanos dignos a todos os seus moradores.
O projeto Portal do Príncipe, conforme divulgado na sua contratação, não atende a nenhuma destas demandas, ao contrário, o projeto :
Prioriza o veículo individual como meio principal de locomoção em detrimento do transporte coletivo, segmenta a cidade e separa os bairros, não preserva e não propõem espaços para a habitação e atividades produtivas e contribui para a desqualificao ambiental e estética da região.
Isto e’, um projeto inútil, pouco atento e comprometido  com o futuro e novas exigências para a metrópole.
Reitero minhas críticas anteriores ao projeto, publicadas em Movimentoonline.com.br, dezembro/2019, onde dizia:
Gostaria de destacar as seguintes faltas ou ausências notadas na proposta publicada:
1.  Uma conexão adequada dos dois lados do aterro, ligando e articulando, principalmente para o pedestre, a ilha do Príncipe ao morro do Quadro e do Alagoano, a avenida Alexandre Buaiz `a avenida Santo Antônio,
2.  Uma proposta de expansão e requalificação do mercado da Vila Rubim, lugar tradicional de abastecimento e sociabilidade dos moradores da cidade de Vitória,
3.  A previsão de implantação de um sistema de transporte coletivo de média capacidade, tipo BRT ou VLT, que conecte o centro de Vitória `a Cariacica e Vila Velha
4.  Um proposta de geração de espaços construídos, para abrigarem edifícios de habitação social, serviços públicos e privados, comércios e instalação de novos negócios,
5.  E finalmente uma
qualificação paisagística  e ambiental através da implantação de um parque linear, que ligue o mercado da Vila Rubim `a rodoviária e ao parque Tancredo Neves.”
Cabe ao Governo do Estado estabelecer um debate amplo, da oportunidade e qualidade deste projeto, e que possa contribuir positivamente para a sua revisão, vinculada os novos desejos e necessidades da Grande Vitória.

Kleber Frizzera
maio 2020
 

domingo, 26 de abril de 2020

Uma nova vida doméstica.



Os esforços mundiais de controle e resistência ao avanço do corona vírus tem estimulado e exigido que mais e mais pessoas se recolham as suas casas, o único lugar aparentemente protegido contra os riscos da contaminação.
Estas exigências, ao transferir parte da vivência cotidiana para os interiores das residências, trabalhos, relações sociais e entretenimentos, tem deixadas expostas as deficiências físicas, sensoriais, funcionais e simbólicas da casa brasileira, e revelam a extensão das desigualdades sociais e urbanas.
De um lado, ficam claras a profunda exclusão de grande parte da população da condição mínima de moradia, dimensões compatíveis, infraestruturas e localizações adequadas, e de outro lado, visíveis os equívocos formais, sensíveis e materiais da produção capitalista imobiliária e de suas relações com o entorno natural e as cidades.
As desigualdades urbanas têm a sua origem na profunda diferença de rendas que cliva a sociedade, impedindo aos setores mais pobres o acesso ao mercado imobiliário, e e’ exponenciada pelos baixos investimentos públicos na produção de imóveis e urbanizações de qualidade para esta população.
Os setores médios e superiores, a algum tempo, têm alterado os perfis demográficos, aumento da expectativa de vida, adiamento do casamento e da maternidade, etc., observados nas metrópoles na oferta de imóveis e ambientes urbanos projetados para a vida solitária ou famílias pequenas, adequados para os novos perfis pessoais e comportamentos sociais.
Responde esta oferta `as alterações dos grupos familiares, ao crescimento da proporção de famílias dirigidas por mulheres e do número de jovens adultos vivendo nas residências maternas, e no geral, uma redução significativa, identificada no censo de 2010, do número de moradores por unidade habitacional.
A imposição atual de um maior tempo de permanência e vivência diária nas casas ou apartamentos, tem demonstrado ou sinalizado as seguintes inadequações ambientais, simbólicas e funcionais;
1.    A forte segregação urbana imposta à população pobre, nos locais de moradia e na mobilidade urbana, mas também, por decisão própria, a setores da classe média, que passaram a se isolar nos condomínios fechados.
2.   O acirramento dos comportamentos autoritários no convívio familiar, da violência doméstica, principalmente contra as mulheres. A casa tradicional, reduto feminino, torna-se local da disputa, onde os homens, expulsos dos lugares tradicionais da sociabilidade masculina, nas ruas e bares, passam a querer demarcar o seu poder e presença no espaço doméstico.
3.   O retorno do papel da cozinha como um centro de compartilhamento dos afetos domésticos, na produção e consumo dos alimentos, em comum, práticas que tinham sido reduzidas pelo crescente aumento da alimentação fora de casa.
4.   As limitações para a instalação de ambientes adequados ao home office, em residências onde não há privacidade suficiente para o exercício do trabalho e estudo individual, bem como suportes físicos e tecnológicos para estas atividades.
5.    Casas e apartamentos desenhados e construídos, nas áreas metropolitanas, para o uso noturno ou de fim de semana, mostram-se insuficientes, em dimensões e confortos corporais, inadequados em termos ambientais e pouco estimulantes para atender o usufruto intenso e simultâneo de toda a família.

Algumas sintomas destas situações já podiam ser percebidas no crescente interesse no reforma ou decoração dos interiores dos imóveis, construídos em série, em condomínios e edifícios de apartamentos. Insatisfeitos com uma estética insípida, layouts restritivos, estimulados ao consumo de móveis e equipamentos domésticos, moradores de vários estratos de renda, passaram a contratar profissionais e investir para (re)decorar e qualificar os seus espaços domésticos.
A crise atual da pandemia deve alterar a profundamente a vida pública, exigir novas modulações nos projetos urbanos e na utilização dos ambientes coletivos, mas também pode apresentar a oportunidade para pensar, propor e reconfigurar o espaço privado, a partir, creio, das seguintes condições:
1.    A superposição de atividades de aprendizado, redes sociais e trabalho aos usos correntes da habitação, da convivência afetiva e reprodução da força de trabalho, vem somar a demanda do autonomia feminina no espaço privado e urbano e das potencializações dos desejos e diversificação dos gostos nas experiências individuais e grupais.
2.   A necessidade imperiosa de fornecer moradias e urbanizações de qualidade a um conjunto imenso de cidadãos, acompanha, urgente e necessária, à redução das desigualdades de renda. A produção, em escala, de habitações e de suas infraestruturas, não se limita a uma questão técnica ou de financiamento, exige participação dos moradores e um entendimento dos modos de vida e práticas que se desenvolvem nos bairros populares, seus valores e exigências particulares de sobrevivência, trabalho e lazer.
3.   E finalmente, a casa tem que ser entendida e percebida, não mais simplesmente como o local do atraso, da reprodução de comportamentos tradicionais ou hierárquicos, mas como um cenário da vida, onde sob a pressão das transformações externas e internas, se movimenta, fervilha uma grande e possível mudança de comportamentos privados, de inovadoras relações de afetos, poderes e prazeres, onde as mulheres e os jovens tem um papel central na suas invenções, subjetivações e gozos.

O desenhos e os projetos destas novas casas, de suas inserções no meio natural e construído, de suas formas visíveis e potenciais, a serem reveladas pelos usos múltiplos e singulares, ainda não existem e são desafios para uma sociedade, seus técnicos e políticos, comprometidos para mundos e tempos melhores, na vida privada e na vida pública.

Kleber Frizzera
Abril 2020

sábado, 11 de abril de 2020

O sequestro do tempo e ( do espaço)


Gianozzo: Há três coisas que o homem pode dizer que lhe pertencem propriamente: a fortuna, o corpo...
Lionardo: – E qual seria a terceira?
Gianozzo: – Ah! Uma coisa extremamente preciosa. Essas mãos e esses olhos não são meus como ela.
Lionardo: – Maravilha! E o que é?
Gianozzo: – O tempo, meu caro Lionardo, o tempo, meus filhos.
Leon Battista Alberti.
Seculo XV

Uma das lutas centrais e que fez parte das conquistas principais dos trabalhadores no século XX, foi pela limitação diária de 8 horas de trabalho, uma luta histórica que tem enfrentado desde o fim da Idade Média, a ordem, o ritmo e o controle disciplinar do tempo e do cotidiano humano, impostos pelo capitalismo.
A regulamentação da cadência e do encadeamento do esforço urbano, diz Jacques Le Goff, “e’ uma das principais necessidades que, no século XIV, impulsionaram a sociedade a modificar a medida do tempo, quer dizer, o próprio tempo: a necessidade de se adaptar à evolução econômica.” De uma economia rural, dominada pelos ritmos agrários, sem pressa, sem rigor ou exatidão, pouco capaz da medição dos esforços quantitativos, definidos pelos regimes do solo e do calendário natural, pela rotina “do levantar-se ao por do sol”, a Europa, no Renascimento, caminhou para um mundo urbano, o mundo das horas certas, do tic tac do relógio mecânico.
Para Le Goff, este século do relógio e’ o momento da produção expandida do regime disciplinar dos corpos, da apropriação da riqueza e dominação do estado e dos proprietários, mas e’ também “aquele do canháo e da profundidade do campo visual. Tempo e espaço transformam-se igualmente para o erudito e mercador.”
A transição moderna para a revolução fabril industrial criou, segundo E. P. Thompson, “uma nova percepção do tempo, ditada pela precisão, pelas unidades do relógio e divididas as jornadas diárias em períodos de produção e reprodução”. O século XIX, com a expansão das indústrias nos países centrais e a manutenção da escravidão, no Brasil, ate’ praticamente o final do período, assistiu uma universalização das formas de controle dos tempos e das rotinas dos esforços humanos, inclusive com a incorporação de jovens e crianças aos processos produtivos.
Para Antônio Negri, em Assembly, agora, uma outra concepção do tempo emerge do interior da fase atual, quando somos progressivamente todos exortados a elevarmos a nossa “produtividade em todos os momentos de nossas vidas.”, e progressivamente, nas palavras de Jonhatan Crary, somos todos “destituídos do tempo”.
Há alguns anos, vários autores têm descrito estas fortes alterações dos regimes dos tempos e ritmos do trabalho e seus impactos sobre a vida cotidiana, pública e privada, e consequentemente sobre a experiência coletiva dos espaços urbanos.
O livro de Jonathan Crary, Capitalismo tardio e os fins de sono, publicado em 2015, pode se visto como um alerta, uma antecipação `as condições impostas , hoje, pela quarentena do Coronavirus. Afastados dos lugares partilhados de trabalho, do lazer e de ensino/ aprendizagem, muitos de nós, somos restritos ao confinamento doméstico e obrigados ao regime do home office, onde, “sem o espaço e o tempo da privacidade, longe da luz implacável e crua da constante presença do outros no mundo, não se pode alimentar a singularidade do eu”, uma restrição, que remete, depois do seu uso, devolve o usuário/ consumidor `a sua solidão privada.
A experiência urbana, pública, diversa, múltipla e compartilhada, alerta Crary, esta’ se atrofiando, e assistimos a uma crescente redução e alteração das capacidades mentais, sensoriais e perceptivas, e entre o tempo humano e as temporalidades do sistema das redes, um conjunto de “ disjunções, fraturas e desequilíbrios compõem a experiência real destas relações”.
Atualmente, tornados inúteis ou descartáveis, imensos contingentes de desempregados ou trabalhadores em home office, desenvolvem, em horários expandidos/ ilimitados, sem noite, sem sonhos, atividades precárias, instáveis, temporárias, submetidos ao ritmo incessante de 24/7, vinte e quatro horas, sete dias por semana, sequestrados, o tempo e o espaço, individual e social, pelos poderes e interesses econômicos.
Exilados das nossas cidades, sequestrados das temporalidades naturais e do usufruto dos lugares comuns, quais os caminhos humanos, na pós pandemia, para voltarmos, retornarmos ao mundo público e à invenção da história, e diante da constante presença real e corporal do outros, “depois de repetidas negações e repressões”, enfrentarmos os riscos da liberdade e da felicidade?

Kleber Frizzera/ abril 2020

sábado, 28 de março de 2020

cidade


Uma pós cidade

Onde mora o perigo também cresce a salvação
Hölderlin


Para onde nos leva esta estrada

Uma pergunta ronda os tempos de pandemia.
Superada a fase crítica da peste, que afasta os corpos, separa e penaliza as proximidades e os afetos, quando ultrapassadas as perdas, as dores, os sofrimentos e as solidões dos isolamentos e das mortes, a que cidades retomaremos para nossos usos e prazeres?
As cidades, nos disse o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, são construídas para possibilitarem as conversas entre os homens e as mulheres, para ativarem as trocas no espaço público, nas praças e nos mercados, nas escolas e nos espetáculos, para compartilhar alegrias com os amigos nos bares, nas igrejas, nos estádios, etc.
Por séculos, a humanidade foi construindo um lugar denso, comum, um lugar de proximidade física e temporal, onde os cidadãos podem se encontrar e viver experiências comuns. Um lugar especial, a cidade, onde podemos discutir, concordar e discordar, comprar e vender, orar, dançar e cantar, estar em multidão, e nos reconhecer como sujeito diante do outro, do diferente, do bárbaro. Nestes ambientes e práticas urbanas civilizadas, rompemos nossa solidão, enfrentamos nossa inevitável finitude, e temos a oportunidade de reinventar nossa história e projetar o nosso futuro, pessoal e coletivo.
Nos tempos difíceis, quando nos recolhemos em nossas casas, nos afastamos da contaminação dos corpos dos próximos, amigos, parentes, desconhecidos, desconfiados de todos eles, possíveis de conter e espalhar o vírus mortal, o que estamos acumulando em nossas paixões e singularidades?
Estamos refletindo, que este momentos são os adequados para revermos nossas posturas diante da vida, diante das crescentes segregações sociais, econômicas e urbanas, dos individualismos, das intolerâncias e dos egoísmos?
Voltaremos, superados os fortes constrangimentos atuais, para partilhar uma cidade pós pandemia, com qual disposição de espírito e de ação?
Manteremos vestidos as nossas armaduras de segurança, que nos tem protegido da epidemia, reforçando, no retorno ao cotidiano, os preconceitos de todos os tipos, o ódio e o desprezo `a diversidade que circula nas nossas ruas,
ou
Vacinados com as limitações dos contatos físicos e afetivos, tornaremo-nos conscientes das condições e fragilidades comuns da humanidade, da sua dependência de tantos, médicos e enfermeiros, entregadores e motoristas, agricultores e policiais, artistas e professores, de inúmeros trabalhadores para a nossa própria sobrevivência,
Aceitaremos esta frágil situação da vida humana, que depende dos esforços, trabalhos e solidariedade de muitos para ter sentido, significado e continuidade,
e voltaremos `as ruas, mais humildes, mais solidários, mais atentos e quem sabe, mais animados para fazermos nossas cidades menos desiguais, mais justas, mais belas e mais felizes.

Kleber Frizzera
Março 2020  

terça-feira, 17 de março de 2020

Terceira ponte



Desde a sua inauguração, ou mesmo antes, a terceira ponte esteve presente nos debates, discussões, apreciações e desentendimentos que circulam nas conversas diárias dos moradores da metrópole e da midia capixaba.
No início, foi aplaudida como solução para os engarrafamentos que paralisavam a área central de Vitória, criticada quando interrompida a sua construção e finalmente intensamente comemorada na sua inauguração.
O trânsito pelo centro foi reduzido, os investimentos imobiliários- habitações e shoppings- abriram uma nova fronteira na orla de Vila Velha, atraindo novos e inúmeros moradores. Ninguém parou para pensar se a escolha de sua implantação teria sido a melhor ou mais adequada, estimulando a ocupação litorânea da cidade e dividindo o município em dois lados.
A concentração em Vitoria dos empregos e instituições públicas, o crescimento da ocupação do planalto de Carapina, fez que rapidamente a solução da terceira ponte se transformasse em um problema. O custo do pedágio, engarrafamentos diários e excepcionais em caso de seu fechamento, passaram a penalizar aqueles que diariamente são obrigados a utilizá-la e um mundo de propostas e ideias de soluções passou a circular.
Transporte aquaviario, alargamento com novas pistas, deslocamento temporário da barreira central, acessos a pedestres e bicicletas, redução ou eliminação do pedágio se somaram a dezenas de outras sugestões que ainda circulam no dia a dia da cidade.
Nenhuma ou quase nenhuma destas propostas entendeu que era e e’ preciso priorizar o transporte coletivo, não apenas, necessário para reduzir o volume de veículos privados, mas por ser a forma internacional adotada para o desenvolvimento sustentável das áreas metropolitanas, como preconiza o Plano de desenvolvimento integrado da Grande Vitoria - PDUI -aprovado pela Assembleia Legislativa nos final de 2018.
A proposta atual, apresentada pelo Governo do Estado, de ampliar uma faixa para veículos e a implantação de uma ciclovia parece anacrônica e desligada dos problemas reais e das soluções contemporâneas de mobilidade urbana.
A instalação de uma ciclovia, em uma via com inclinação de ate’ 6%, com mais de 3 km de extensão, além de permitir o passeio dominical, pouco ira’ facilitar o deslocamento cotidiano, parecendo ser apenas uma satisfação aos movimentos ciclistas. A expansão da oferta e dos horários dos ônibus que transportam bicicletas e’ muito mais econômico, mais seguro e menos penoso para os que a usam diariamente.
Quanto a uma nova faixa, que irá aumentar a capacidade da ponte, será tornada inútil quando desembocar estes somados veículos nas limitações físicas das ruas das duas cidades vizinhas, transferindo gargalos e engarrafamentos para os seus interiores.
Cabe entender que os veículos particulares, como base e fundamento da mobilidade urbana em todo o mundo estão com os dias contados. Mais e mais cidades têm restringido os acessos as suas áreas centrais, totalmente ou criando pedágios elevados, e buscado transferir as demandas de mobilidade pessoal para o transporte público, coletivo, alguns gratuitos, acessível, de alta capacidade e conforto, movidos a eletricidade e associados a uma forte intervenção na malha construída.
Na Grande Vitória, como ações gerais para melhoria e desempenho da mobilidade, creio urgente um conjunto de ações, visando :
1.   Conter a expansão da malha urbana, evitando a sua fragmentação e dispersão, que aumenta as distancias e tempos de deslocamento; estimular o adensamento dos setores construídos infra estruturados, em decadência ou com diminuição populacional
2.   Preparar a metrópole para as novas formas e relações de trabalho, dispersas, temporárias, muitas vezes precárias, ou feitas a distância, sendo muitas delas já’ deslocadas para o interior das moradias.
3.   Estruturar um sistema metropolitano de mobilidade, de pessoas e bens, gerido por uma empresa pública com a participação dos moradores e dos municípios.
São tarefas deste sistema criar as condições físicas e ambientais para o movimentos a pé’, de bicicletas, motocicletas, facilitar os acessos aos morros, instalar redes locais de permeabilidades, promover o transporte aquaviario, produzir uma regulamentação dos serviços tipos Uber e Taxis, controlar as pontes, e por fim, implantar um sistema de transporte publico, tipo VLT
4.    E finalmente, mas não por último, cabe planejar e investir em um plano de habitação e urbanização metropolitano, com o objetivo reduzir as condições de desigualdades sociais e urbanas.
Para os céticos, cabe lembrar que todas as previsões garantem que a metrópole terá estabilizada a sua população na década de 2030, daqui a dez anos, e teremos de prover e viver em uma cidade com mais idosos, menos jovens, onde superados os momentos críticos das migrações rural das década de 1970 e 1980, haverão as condições para qualificar a vida urbana, com a produção de moradias e serviços públicos para todos, melhores e com maior qualidade de serviços.
E, por fim, não podemos esquecer que qualquer ação deve se subordinar ao nosso compromisso de participar da luta em defesa do planeta e de enfrentamento do aquecimento global, afinal pode sobrar a suas consequências para nós moradores costeiros.


Kleber Frizzera
Março 2020

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Carnaval 2020


A cidade ensinou-me infinitos temores:
Multidões, uma rua me sobressaltaram,
Uma ideia, outras vezes, flagrada num rosto.
Sinto ainda nos olhos a luz traiçoeira
Dos milhares de postes nas grandes calçadas.
Cesare Pavese

Eu desfruto de tanto belo e vivo em utopias
Hegel

Carnaval
A cidade toda se movimenta, se agita, jovens e velhos se agrupam, se divertem, em festas, nas ruas, em blocos e desfiles, para experimentar e comemorar algo em comum.
A vida?
Liberados do cotidiano, do trabalho que cansa, da educação que disciplina, das disputas que exaurem a vontade, das práticas sociais que ordenam o corpo e definem os seus limites, homens e mulheres experimentam as fronteiras dos prazeres, dos gozos e das alegrias coletivas.
Nestes momentos, as experiências sensoriais, estimuladas pelas bebidas e comidas, envolvidas pelas danças e músicas, pelos contatos físicos, roubados beijos e olhares temporários, valem mais que a posse dos objetos.
Mas seria o envolvimento total com o prazer fugaz uma forma imposta de consumo, um gasto inútil de uma experiência rápida e superficial, um envolvimento pessoal com um evento passageiro que não deixa ou não fixa nenhum traço significativo?
Para Peter Glotz, o entretenimento possivelmente guarda uma  relação com a Paixão que conduz `a morte: e completa, a condenação do  entretenimento, da distração e da arte ligeira tem raízes religiosas.
Byung Chul Han, filósofo coreano, procura entender o aumento do tempo dedicado ao entretenimento no mundo atual, de outra maneira, quando, supõem ele, trabalho e ócio estão perdendo sua barreira impermeável e se mesclam, como escreve no seu mais recente livro, 2018, Bom entretenimento.
Afirma o filósofo, a história do Ocidente e’ uma história da Paixão: as culturas com tradição crista’ a entendem como um sofrimento insuportável e inevitável que só ao final dos tempos será recompensado. A Paixão, transferida ao trabalho e ao esforço cotidiano, tem sido entendida como uma oposição, ao largo da história, aos conceitos e as experiências corporais do prazer e do ócio.
O entretenimento e as muitas formas do carnaval podem parecer uma decadência para a sociedade, mas são realmente tão distintos o puro absurdo do jogo ao puro sentido da Paixão?
Para alguns estudiosos, a universalização do entretenimento surge modernamente com a regulação do trabalho, que inventa, normatiza, e se opõem o tempo do ócio, sem o qual não haveria um momento próprio para a diversão, um privilégio anterior exclusivo da aristocracia, uma classe que não trabalhava. O entretenimento seria um conjunto de atividades com que se preenche o tempo livre da rotinas e das regras do trabalho.
No mundo atual, buscam-se cada vez mais excedentes de tempo que liberem a vida da coerção e a desvinculação com o constrangimento dos lugares e das disciplinas são elementos de uma aproximação com uma utopia urbana, do gozo e da pura diversão, diz Adorno, uma forma que a aproxima da arte, que liberada, seria não só o seu oposto, mas também o extremo que a toca. Uma utopia e’ próxima da arte, e, Arte e’ paixão, e apenas a paixão tem acesso a transcendência, escreveu George Steiner, falecido recentemente.
E Byung Chul Han propõem, provoca :
O entretenimento se eleva a um novo paradigma, a uma nova forma do mundo e do ser. Para ser, fazer parte do mundo, e necessário ser algo que entretém. Só o que resulta em entretenimento é’ real ou efetivo. Não e’ mais relevante a diferença entre a realidade fictícia e real,...a realidade parece ser um efeito do entretenimento.
Paixão e entretenimento são irmanados?


Kleber Frizzera
Fevereiro 2019

sábado, 4 de janeiro de 2020

feliz 2020


Viver em comum

A cidade ensinou-me infinitos temores:
Multidões, uma rua me sobressaltaram,
Uma ideia, outras vezes, flagrada num rosto.
Sinto ainda nos olhos a luz traiçoeira
Dos milhares de postes nas grandes calçadas.
Cesare Pavese

Quais dimensões, densidades habitacionais e de usos públicos devem ter as nossas cidades e metrópoles para que possam gerar um ambiente estimulante `a experiência e ao conhecimento humano, através dos contatos pessoais diretos, uma vida em comum, exercida cotidianamente na variedade de pessoas e eventos?
Segundo Georges Minois, em História da solidão e dos solitários, no mundo clássico latino : A solidão e’ a condenação, o exílio, o castigo, a morte. A vida e’ a cidade, a urbanitas, a multidão, o circo, as termas, o fórum, o senado, o teatro, o tribunal, o mercado, as orgias, as vistas, os templo. A vida pública, no ocidente, desde então, se fez, se realiza no compartilhamento político, cultural e social das cidades e dos seus equipamentos construídos, embora para Petrarca, devemos nos retirar para o mais longe possível das multidões e da agitação da cidade.
Em Fedro, Platão confessa outro entendimento: Amo aprender, como sabes. Ora, os campos e as arvores não aceitam me ensinar nada, enquanto e’ isto que fazem os homens que estão na cidade. Juntos e próximos, diante aos diferentes, segundo ele, temos as oportunidades de aprender em conjunto, acessando novas experiências, acontecimentos limites-que colocam em questão o ser do conhecido, do belo e do bom-, e se realizar plenamente através da incorporação do outro.
Para os que estimam os prazeres urbanos, e’ necessário que as urbs possuam habitantes em número, diversidade e em situação de mobilidade e proximidades tais para potencializar e (con)viver seus lugares dos conflitos e belezas, de visibilidade do estético e do trágico, nós de muitas trocas, encontros e desencontros.
Para Felix Guatarri, O alcance dos espaços construídos vai então bem além de suas estruturas visíveis e funcionais. São essencialmente máquinas, máquinas de sentido, de sensação, ... máquinas portadoras de universos incorporais ...que podem trabalhar tanto no sentido de um esmagamento uniformizador quanto no de uma re-singularizacao liberadora da subjetividade individual e coletiva.
Há uma intensa ambiguidade neste desejo humano de busca de sensações e acúmulos de sentidos. Amamos nos perder na multidão, assustadora de um lado, atraente e misteriosa de outro, admirando anônimos passantes, mas também recuamos, inseguros, diante da massa urbana impessoal, de mil caras e falas ruidosas. Para aprender a complexidade do mundo e’ exigência estarmos em companhia, corpos e mentes atentos, enfrentar a presença das múltiplas faces, curiosos diante das frestas, cortes materiais e simbólicos, onde se instalaram as marcas dos passados e dos anúncios de imprevistos futuros.
No entanto, são poderosos os instrumentos virtuais de captura de dados pessoais, que processam nossos movimentos e desejos, e instalados em aplicativos e algoritmos, manipulam prazeres e emoções.
Nas metrópoles, movendo-se por entre a rugosidade das construções e dos corpos, expondo nossos sentidos aos olhares e aos gostos vizinhos, à impressão direta das imagens e da multidão, poderemos ultrapassar o mundo virtual que congela, reduz, simplifica?
Conseguiremos superar as máquinas de poder, dotadas de crescentes inteligências artificiais, que antecipam `a distância vontades pessoais e assumem o controle dos fatos, determinando as ações futuras e as próprias resistências libertadoras?
Quantos olhares singulares enfrentar e aceitar para se aproximar do fundo escuro das coisas, ao segredo dos sofrimentos e alegrias, para sermos melhores, compassivos e demasiadamente humanos?

Quando tudo e´ publico, visível,
quando tudo e´ transparente, ruidoso, exposto, acelerado,
o segredo ama o silêncio.
Publicado em Movimentoonline.com.br
Kleber Frizzera
Dezembro 2019