Vaga-lumes
Ainda que o fulgor outrora tão brilhante
Seja agora para sempre tirado da minha vista,
Embora nada possa trazer de volta a hora
De esplendor na grama, de glória na flor,
Não lamentaremos; antes encontraremos
Força no que permanece.
William Wordsworth
Em 1975, já sem esperanças, Pier Paolo Pasolini, o poeta e cineasta italiano, anunciava o fim dos vaga-lumes. Para ele, os pequenos clarões que antes pontuavam as noites eram a imagem de um povo: seus gestos, seus desejos, suas práticas, suas formas de resistência. Os pirilampos teriam sido ofuscados pelas luzes dos refletores e pelas imagens iluminadas, uma imensa acumulação dos espetáculos que passaram a ocupar todas as noites do mundo.
O fascismo histórico, com seus gritos e horrores, não havia conseguido apagá-los. O que os apagava agora era um clarão mais intenso e mais sedutor, o da sociedade de consumo e do espetáculo. Afastados das escuras campinas, das praças e dos becos urbanos, os pirilampos teriam se recolhido em cavernas, privados dos olhares e dos desejos dos humanos.
Em 2009, Georges Didi-Huberman retoma esta imagem para repensar o princípio esperança. Lembra, com Walter Benjamin, que há momentos em que o outrora encontra o agora e, nesse encontro, forma-se uma constelação. E pergunta: “com uma luz fraca, rente ao chão, ainda que se deslocando lentamente, não desenham os vaga-lumes, rigorosamente falando, uma tal constelação?”
A pergunta continua de pé. Hoje estamos diante de outros excessos luminosos. Em brilho contínuo, esses excessos invadem dia e noite a nossa vida com incessantes mensagens e convites, ocupando telefones e computadores, amplificados ao limite máximo pela inteligência artificial. E é sob esse mesmo clarão que um neofascismo avança. Não por acaso: uma luz que captura toda a atenção, que devolve a cada um apenas o que ele já pensa e que transforma a raiva em mercadoria é o ambiente ideal para quem precisa de multidões que não se olham. Daí se estendem as violências e as guerras, a submissão de corpos e de países, a exploração dos recursos humanos e naturais.
Em tempos de catástrofe, a urgência seria, como lê Didi-Huberman em Benjamin, a de organizar o pessimismo: “encontrar as ressurgências do declínio ao fundo das imagens, tal vaga-lumes ou astros isolados”, até que formem uma constelação capaz de fazer frente às construções totalitárias e de abrir um espaço de imagens e sonhos.
Mas nas estreitas molduras desses instrumentos luminosos, entre os deslocamentos sequenciais de imagens, narrativas e influenciadores, não cabem os vaga-lumes. A tela exige brilho constante, e eles são intermitentes; exige o centro do quadro, e eles se movem pelas bordas. Ela nos oferece o provável, aquilo que já vimos e que se calcula que desejaremos, e eles só aparecem onde ninguém os esperava. Seus pequenos pontos são empurrados para fora dos quadros impostos.
Talvez, como sugere Didi-Huberman, os vaga-lumes não tenham desaparecido. Talvez tenhamos apenas perdido o hábito e a vontade de procurá-los, cegos pelo excesso de luz e pelos ruídos de fundo. Eles ainda piscam longe das telas: na frase de um desconhecido, que nos acompanha pelo resto do dia sem que saibamos por quê; num instante único que ninguém registra.
Para vê-los, é preciso aceitar o escuro, o improvável.
Kleber Frizzera, outubro de 2026