domingo, 26 de abril de 2020

Uma nova vida doméstica.



Os esforços mundiais de controle e resistência ao avanço do corona vírus tem estimulado e exigido que mais e mais pessoas se recolham as suas casas, o único lugar aparentemente protegido contra os riscos da contaminação.
Estas exigências, ao transferir parte da vivência cotidiana para os interiores das residências, trabalhos, relações sociais e entretenimentos, tem deixadas expostas as deficiências físicas, sensoriais, funcionais e simbólicas da casa brasileira, e revelam a extensão das desigualdades sociais e urbanas.
De um lado, ficam claras a profunda exclusão de grande parte da população da condição mínima de moradia, dimensões compatíveis, infraestruturas e localizações adequadas, e de outro lado, visíveis os equívocos formais, sensíveis e materiais da produção capitalista imobiliária e de suas relações com o entorno natural e as cidades.
As desigualdades urbanas têm a sua origem na profunda diferença de rendas que cliva a sociedade, impedindo aos setores mais pobres o acesso ao mercado imobiliário, e e’ exponenciada pelos baixos investimentos públicos na produção de imóveis e urbanizações de qualidade para esta população.
Os setores médios e superiores, a algum tempo, têm alterado os perfis demográficos, aumento da expectativa de vida, adiamento do casamento e da maternidade, etc., observados nas metrópoles na oferta de imóveis e ambientes urbanos projetados para a vida solitária ou famílias pequenas, adequados para os novos perfis pessoais e comportamentos sociais.
Responde esta oferta `as alterações dos grupos familiares, ao crescimento da proporção de famílias dirigidas por mulheres e do número de jovens adultos vivendo nas residências maternas, e no geral, uma redução significativa, identificada no censo de 2010, do número de moradores por unidade habitacional.
A imposição atual de um maior tempo de permanência e vivência diária nas casas ou apartamentos, tem demonstrado ou sinalizado as seguintes inadequações ambientais, simbólicas e funcionais;
1.    A forte segregação urbana imposta à população pobre, nos locais de moradia e na mobilidade urbana, mas também, por decisão própria, a setores da classe média, que passaram a se isolar nos condomínios fechados.
2.   O acirramento dos comportamentos autoritários no convívio familiar, da violência doméstica, principalmente contra as mulheres. A casa tradicional, reduto feminino, torna-se local da disputa, onde os homens, expulsos dos lugares tradicionais da sociabilidade masculina, nas ruas e bares, passam a querer demarcar o seu poder e presença no espaço doméstico.
3.   O retorno do papel da cozinha como um centro de compartilhamento dos afetos domésticos, na produção e consumo dos alimentos, em comum, práticas que tinham sido reduzidas pelo crescente aumento da alimentação fora de casa.
4.   As limitações para a instalação de ambientes adequados ao home office, em residências onde não há privacidade suficiente para o exercício do trabalho e estudo individual, bem como suportes físicos e tecnológicos para estas atividades.
5.    Casas e apartamentos desenhados e construídos, nas áreas metropolitanas, para o uso noturno ou de fim de semana, mostram-se insuficientes, em dimensões e confortos corporais, inadequados em termos ambientais e pouco estimulantes para atender o usufruto intenso e simultâneo de toda a família.

Algumas sintomas destas situações já podiam ser percebidas no crescente interesse no reforma ou decoração dos interiores dos imóveis, construídos em série, em condomínios e edifícios de apartamentos. Insatisfeitos com uma estética insípida, layouts restritivos, estimulados ao consumo de móveis e equipamentos domésticos, moradores de vários estratos de renda, passaram a contratar profissionais e investir para (re)decorar e qualificar os seus espaços domésticos.
A crise atual da pandemia deve alterar a profundamente a vida pública, exigir novas modulações nos projetos urbanos e na utilização dos ambientes coletivos, mas também pode apresentar a oportunidade para pensar, propor e reconfigurar o espaço privado, a partir, creio, das seguintes condições:
1.    A superposição de atividades de aprendizado, redes sociais e trabalho aos usos correntes da habitação, da convivência afetiva e reprodução da força de trabalho, vem somar a demanda do autonomia feminina no espaço privado e urbano e das potencializações dos desejos e diversificação dos gostos nas experiências individuais e grupais.
2.   A necessidade imperiosa de fornecer moradias e urbanizações de qualidade a um conjunto imenso de cidadãos, acompanha, urgente e necessária, à redução das desigualdades de renda. A produção, em escala, de habitações e de suas infraestruturas, não se limita a uma questão técnica ou de financiamento, exige participação dos moradores e um entendimento dos modos de vida e práticas que se desenvolvem nos bairros populares, seus valores e exigências particulares de sobrevivência, trabalho e lazer.
3.   E finalmente, a casa tem que ser entendida e percebida, não mais simplesmente como o local do atraso, da reprodução de comportamentos tradicionais ou hierárquicos, mas como um cenário da vida, onde sob a pressão das transformações externas e internas, se movimenta, fervilha uma grande e possível mudança de comportamentos privados, de inovadoras relações de afetos, poderes e prazeres, onde as mulheres e os jovens tem um papel central na suas invenções, subjetivações e gozos.

O desenhos e os projetos destas novas casas, de suas inserções no meio natural e construído, de suas formas visíveis e potenciais, a serem reveladas pelos usos múltiplos e singulares, ainda não existem e são desafios para uma sociedade, seus técnicos e políticos, comprometidos para mundos e tempos melhores, na vida privada e na vida pública.

Kleber Frizzera
Abril 2020

sábado, 11 de abril de 2020

O sequestro do tempo e ( do espaço)


Gianozzo: Há três coisas que o homem pode dizer que lhe pertencem propriamente: a fortuna, o corpo...
Lionardo: – E qual seria a terceira?
Gianozzo: – Ah! Uma coisa extremamente preciosa. Essas mãos e esses olhos não são meus como ela.
Lionardo: – Maravilha! E o que é?
Gianozzo: – O tempo, meu caro Lionardo, o tempo, meus filhos.
Leon Battista Alberti.
Seculo XV

Uma das lutas centrais e que fez parte das conquistas principais dos trabalhadores no século XX, foi pela limitação diária de 8 horas de trabalho, uma luta histórica que tem enfrentado desde o fim da Idade Média, a ordem, o ritmo e o controle disciplinar do tempo e do cotidiano humano, impostos pelo capitalismo.
A regulamentação da cadência e do encadeamento do esforço urbano, diz Jacques Le Goff, “e’ uma das principais necessidades que, no século XIV, impulsionaram a sociedade a modificar a medida do tempo, quer dizer, o próprio tempo: a necessidade de se adaptar à evolução econômica.” De uma economia rural, dominada pelos ritmos agrários, sem pressa, sem rigor ou exatidão, pouco capaz da medição dos esforços quantitativos, definidos pelos regimes do solo e do calendário natural, pela rotina “do levantar-se ao por do sol”, a Europa, no Renascimento, caminhou para um mundo urbano, o mundo das horas certas, do tic tac do relógio mecânico.
Para Le Goff, este século do relógio e’ o momento da produção expandida do regime disciplinar dos corpos, da apropriação da riqueza e dominação do estado e dos proprietários, mas e’ também “aquele do canháo e da profundidade do campo visual. Tempo e espaço transformam-se igualmente para o erudito e mercador.”
A transição moderna para a revolução fabril industrial criou, segundo E. P. Thompson, “uma nova percepção do tempo, ditada pela precisão, pelas unidades do relógio e divididas as jornadas diárias em períodos de produção e reprodução”. O século XIX, com a expansão das indústrias nos países centrais e a manutenção da escravidão, no Brasil, ate’ praticamente o final do período, assistiu uma universalização das formas de controle dos tempos e das rotinas dos esforços humanos, inclusive com a incorporação de jovens e crianças aos processos produtivos.
Para Antônio Negri, em Assembly, agora, uma outra concepção do tempo emerge do interior da fase atual, quando somos progressivamente todos exortados a elevarmos a nossa “produtividade em todos os momentos de nossas vidas.”, e progressivamente, nas palavras de Jonhatan Crary, somos todos “destituídos do tempo”.
Há alguns anos, vários autores têm descrito estas fortes alterações dos regimes dos tempos e ritmos do trabalho e seus impactos sobre a vida cotidiana, pública e privada, e consequentemente sobre a experiência coletiva dos espaços urbanos.
O livro de Jonathan Crary, Capitalismo tardio e os fins de sono, publicado em 2015, pode se visto como um alerta, uma antecipação `as condições impostas , hoje, pela quarentena do Coronavirus. Afastados dos lugares partilhados de trabalho, do lazer e de ensino/ aprendizagem, muitos de nós, somos restritos ao confinamento doméstico e obrigados ao regime do home office, onde, “sem o espaço e o tempo da privacidade, longe da luz implacável e crua da constante presença do outros no mundo, não se pode alimentar a singularidade do eu”, uma restrição, que remete, depois do seu uso, devolve o usuário/ consumidor `a sua solidão privada.
A experiência urbana, pública, diversa, múltipla e compartilhada, alerta Crary, esta’ se atrofiando, e assistimos a uma crescente redução e alteração das capacidades mentais, sensoriais e perceptivas, e entre o tempo humano e as temporalidades do sistema das redes, um conjunto de “ disjunções, fraturas e desequilíbrios compõem a experiência real destas relações”.
Atualmente, tornados inúteis ou descartáveis, imensos contingentes de desempregados ou trabalhadores em home office, desenvolvem, em horários expandidos/ ilimitados, sem noite, sem sonhos, atividades precárias, instáveis, temporárias, submetidos ao ritmo incessante de 24/7, vinte e quatro horas, sete dias por semana, sequestrados, o tempo e o espaço, individual e social, pelos poderes e interesses econômicos.
Exilados das nossas cidades, sequestrados das temporalidades naturais e do usufruto dos lugares comuns, quais os caminhos humanos, na pós pandemia, para voltarmos, retornarmos ao mundo público e à invenção da história, e diante da constante presença real e corporal do outros, “depois de repetidas negações e repressões”, enfrentarmos os riscos da liberdade e da felicidade?

Kleber Frizzera/ abril 2020

sábado, 28 de março de 2020

cidade


Uma pós cidade

Onde mora o perigo também cresce a salvação
Hölderlin


Para onde nos leva esta estrada

Uma pergunta ronda os tempos de pandemia.
Superada a fase crítica da peste, que afasta os corpos, separa e penaliza as proximidades e os afetos, quando ultrapassadas as perdas, as dores, os sofrimentos e as solidões dos isolamentos e das mortes, a que cidades retomaremos para nossos usos e prazeres?
As cidades, nos disse o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, são construídas para possibilitarem as conversas entre os homens e as mulheres, para ativarem as trocas no espaço público, nas praças e nos mercados, nas escolas e nos espetáculos, para compartilhar alegrias com os amigos nos bares, nas igrejas, nos estádios, etc.
Por séculos, a humanidade foi construindo um lugar denso, comum, um lugar de proximidade física e temporal, onde os cidadãos podem se encontrar e viver experiências comuns. Um lugar especial, a cidade, onde podemos discutir, concordar e discordar, comprar e vender, orar, dançar e cantar, estar em multidão, e nos reconhecer como sujeito diante do outro, do diferente, do bárbaro. Nestes ambientes e práticas urbanas civilizadas, rompemos nossa solidão, enfrentamos nossa inevitável finitude, e temos a oportunidade de reinventar nossa história e projetar o nosso futuro, pessoal e coletivo.
Nos tempos difíceis, quando nos recolhemos em nossas casas, nos afastamos da contaminação dos corpos dos próximos, amigos, parentes, desconhecidos, desconfiados de todos eles, possíveis de conter e espalhar o vírus mortal, o que estamos acumulando em nossas paixões e singularidades?
Estamos refletindo, que este momentos são os adequados para revermos nossas posturas diante da vida, diante das crescentes segregações sociais, econômicas e urbanas, dos individualismos, das intolerâncias e dos egoísmos?
Voltaremos, superados os fortes constrangimentos atuais, para partilhar uma cidade pós pandemia, com qual disposição de espírito e de ação?
Manteremos vestidos as nossas armaduras de segurança, que nos tem protegido da epidemia, reforçando, no retorno ao cotidiano, os preconceitos de todos os tipos, o ódio e o desprezo `a diversidade que circula nas nossas ruas,
ou
Vacinados com as limitações dos contatos físicos e afetivos, tornaremo-nos conscientes das condições e fragilidades comuns da humanidade, da sua dependência de tantos, médicos e enfermeiros, entregadores e motoristas, agricultores e policiais, artistas e professores, de inúmeros trabalhadores para a nossa própria sobrevivência,
Aceitaremos esta frágil situação da vida humana, que depende dos esforços, trabalhos e solidariedade de muitos para ter sentido, significado e continuidade,
e voltaremos `as ruas, mais humildes, mais solidários, mais atentos e quem sabe, mais animados para fazermos nossas cidades menos desiguais, mais justas, mais belas e mais felizes.

Kleber Frizzera
Março 2020  

terça-feira, 17 de março de 2020

Terceira ponte



Desde a sua inauguração, ou mesmo antes, a terceira ponte esteve presente nos debates, discussões, apreciações e desentendimentos que circulam nas conversas diárias dos moradores da metrópole e da midia capixaba.
No início, foi aplaudida como solução para os engarrafamentos que paralisavam a área central de Vitória, criticada quando interrompida a sua construção e finalmente intensamente comemorada na sua inauguração.
O trânsito pelo centro foi reduzido, os investimentos imobiliários- habitações e shoppings- abriram uma nova fronteira na orla de Vila Velha, atraindo novos e inúmeros moradores. Ninguém parou para pensar se a escolha de sua implantação teria sido a melhor ou mais adequada, estimulando a ocupação litorânea da cidade e dividindo o município em dois lados.
A concentração em Vitoria dos empregos e instituições públicas, o crescimento da ocupação do planalto de Carapina, fez que rapidamente a solução da terceira ponte se transformasse em um problema. O custo do pedágio, engarrafamentos diários e excepcionais em caso de seu fechamento, passaram a penalizar aqueles que diariamente são obrigados a utilizá-la e um mundo de propostas e ideias de soluções passou a circular.
Transporte aquaviario, alargamento com novas pistas, deslocamento temporário da barreira central, acessos a pedestres e bicicletas, redução ou eliminação do pedágio se somaram a dezenas de outras sugestões que ainda circulam no dia a dia da cidade.
Nenhuma ou quase nenhuma destas propostas entendeu que era e e’ preciso priorizar o transporte coletivo, não apenas, necessário para reduzir o volume de veículos privados, mas por ser a forma internacional adotada para o desenvolvimento sustentável das áreas metropolitanas, como preconiza o Plano de desenvolvimento integrado da Grande Vitoria - PDUI -aprovado pela Assembleia Legislativa nos final de 2018.
A proposta atual, apresentada pelo Governo do Estado, de ampliar uma faixa para veículos e a implantação de uma ciclovia parece anacrônica e desligada dos problemas reais e das soluções contemporâneas de mobilidade urbana.
A instalação de uma ciclovia, em uma via com inclinação de ate’ 6%, com mais de 3 km de extensão, além de permitir o passeio dominical, pouco ira’ facilitar o deslocamento cotidiano, parecendo ser apenas uma satisfação aos movimentos ciclistas. A expansão da oferta e dos horários dos ônibus que transportam bicicletas e’ muito mais econômico, mais seguro e menos penoso para os que a usam diariamente.
Quanto a uma nova faixa, que irá aumentar a capacidade da ponte, será tornada inútil quando desembocar estes somados veículos nas limitações físicas das ruas das duas cidades vizinhas, transferindo gargalos e engarrafamentos para os seus interiores.
Cabe entender que os veículos particulares, como base e fundamento da mobilidade urbana em todo o mundo estão com os dias contados. Mais e mais cidades têm restringido os acessos as suas áreas centrais, totalmente ou criando pedágios elevados, e buscado transferir as demandas de mobilidade pessoal para o transporte público, coletivo, alguns gratuitos, acessível, de alta capacidade e conforto, movidos a eletricidade e associados a uma forte intervenção na malha construída.
Na Grande Vitória, como ações gerais para melhoria e desempenho da mobilidade, creio urgente um conjunto de ações, visando :
1.   Conter a expansão da malha urbana, evitando a sua fragmentação e dispersão, que aumenta as distancias e tempos de deslocamento; estimular o adensamento dos setores construídos infra estruturados, em decadência ou com diminuição populacional
2.   Preparar a metrópole para as novas formas e relações de trabalho, dispersas, temporárias, muitas vezes precárias, ou feitas a distância, sendo muitas delas já’ deslocadas para o interior das moradias.
3.   Estruturar um sistema metropolitano de mobilidade, de pessoas e bens, gerido por uma empresa pública com a participação dos moradores e dos municípios.
São tarefas deste sistema criar as condições físicas e ambientais para o movimentos a pé’, de bicicletas, motocicletas, facilitar os acessos aos morros, instalar redes locais de permeabilidades, promover o transporte aquaviario, produzir uma regulamentação dos serviços tipos Uber e Taxis, controlar as pontes, e por fim, implantar um sistema de transporte publico, tipo VLT
4.    E finalmente, mas não por último, cabe planejar e investir em um plano de habitação e urbanização metropolitano, com o objetivo reduzir as condições de desigualdades sociais e urbanas.
Para os céticos, cabe lembrar que todas as previsões garantem que a metrópole terá estabilizada a sua população na década de 2030, daqui a dez anos, e teremos de prover e viver em uma cidade com mais idosos, menos jovens, onde superados os momentos críticos das migrações rural das década de 1970 e 1980, haverão as condições para qualificar a vida urbana, com a produção de moradias e serviços públicos para todos, melhores e com maior qualidade de serviços.
E, por fim, não podemos esquecer que qualquer ação deve se subordinar ao nosso compromisso de participar da luta em defesa do planeta e de enfrentamento do aquecimento global, afinal pode sobrar a suas consequências para nós moradores costeiros.


Kleber Frizzera
Março 2020

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Carnaval 2020


A cidade ensinou-me infinitos temores:
Multidões, uma rua me sobressaltaram,
Uma ideia, outras vezes, flagrada num rosto.
Sinto ainda nos olhos a luz traiçoeira
Dos milhares de postes nas grandes calçadas.
Cesare Pavese

Eu desfruto de tanto belo e vivo em utopias
Hegel

Carnaval
A cidade toda se movimenta, se agita, jovens e velhos se agrupam, se divertem, em festas, nas ruas, em blocos e desfiles, para experimentar e comemorar algo em comum.
A vida?
Liberados do cotidiano, do trabalho que cansa, da educação que disciplina, das disputas que exaurem a vontade, das práticas sociais que ordenam o corpo e definem os seus limites, homens e mulheres experimentam as fronteiras dos prazeres, dos gozos e das alegrias coletivas.
Nestes momentos, as experiências sensoriais, estimuladas pelas bebidas e comidas, envolvidas pelas danças e músicas, pelos contatos físicos, roubados beijos e olhares temporários, valem mais que a posse dos objetos.
Mas seria o envolvimento total com o prazer fugaz uma forma imposta de consumo, um gasto inútil de uma experiência rápida e superficial, um envolvimento pessoal com um evento passageiro que não deixa ou não fixa nenhum traço significativo?
Para Peter Glotz, o entretenimento possivelmente guarda uma  relação com a Paixão que conduz `a morte: e completa, a condenação do  entretenimento, da distração e da arte ligeira tem raízes religiosas.
Byung Chul Han, filósofo coreano, procura entender o aumento do tempo dedicado ao entretenimento no mundo atual, de outra maneira, quando, supõem ele, trabalho e ócio estão perdendo sua barreira impermeável e se mesclam, como escreve no seu mais recente livro, 2018, Bom entretenimento.
Afirma o filósofo, a história do Ocidente e’ uma história da Paixão: as culturas com tradição crista’ a entendem como um sofrimento insuportável e inevitável que só ao final dos tempos será recompensado. A Paixão, transferida ao trabalho e ao esforço cotidiano, tem sido entendida como uma oposição, ao largo da história, aos conceitos e as experiências corporais do prazer e do ócio.
O entretenimento e as muitas formas do carnaval podem parecer uma decadência para a sociedade, mas são realmente tão distintos o puro absurdo do jogo ao puro sentido da Paixão?
Para alguns estudiosos, a universalização do entretenimento surge modernamente com a regulação do trabalho, que inventa, normatiza, e se opõem o tempo do ócio, sem o qual não haveria um momento próprio para a diversão, um privilégio anterior exclusivo da aristocracia, uma classe que não trabalhava. O entretenimento seria um conjunto de atividades com que se preenche o tempo livre da rotinas e das regras do trabalho.
No mundo atual, buscam-se cada vez mais excedentes de tempo que liberem a vida da coerção e a desvinculação com o constrangimento dos lugares e das disciplinas são elementos de uma aproximação com uma utopia urbana, do gozo e da pura diversão, diz Adorno, uma forma que a aproxima da arte, que liberada, seria não só o seu oposto, mas também o extremo que a toca. Uma utopia e’ próxima da arte, e, Arte e’ paixão, e apenas a paixão tem acesso a transcendência, escreveu George Steiner, falecido recentemente.
E Byung Chul Han propõem, provoca :
O entretenimento se eleva a um novo paradigma, a uma nova forma do mundo e do ser. Para ser, fazer parte do mundo, e necessário ser algo que entretém. Só o que resulta em entretenimento é’ real ou efetivo. Não e’ mais relevante a diferença entre a realidade fictícia e real,...a realidade parece ser um efeito do entretenimento.
Paixão e entretenimento são irmanados?


Kleber Frizzera
Fevereiro 2019

sábado, 4 de janeiro de 2020

feliz 2020


Viver em comum

A cidade ensinou-me infinitos temores:
Multidões, uma rua me sobressaltaram,
Uma ideia, outras vezes, flagrada num rosto.
Sinto ainda nos olhos a luz traiçoeira
Dos milhares de postes nas grandes calçadas.
Cesare Pavese

Quais dimensões, densidades habitacionais e de usos públicos devem ter as nossas cidades e metrópoles para que possam gerar um ambiente estimulante `a experiência e ao conhecimento humano, através dos contatos pessoais diretos, uma vida em comum, exercida cotidianamente na variedade de pessoas e eventos?
Segundo Georges Minois, em História da solidão e dos solitários, no mundo clássico latino : A solidão e’ a condenação, o exílio, o castigo, a morte. A vida e’ a cidade, a urbanitas, a multidão, o circo, as termas, o fórum, o senado, o teatro, o tribunal, o mercado, as orgias, as vistas, os templo. A vida pública, no ocidente, desde então, se fez, se realiza no compartilhamento político, cultural e social das cidades e dos seus equipamentos construídos, embora para Petrarca, devemos nos retirar para o mais longe possível das multidões e da agitação da cidade.
Em Fedro, Platão confessa outro entendimento: Amo aprender, como sabes. Ora, os campos e as arvores não aceitam me ensinar nada, enquanto e’ isto que fazem os homens que estão na cidade. Juntos e próximos, diante aos diferentes, segundo ele, temos as oportunidades de aprender em conjunto, acessando novas experiências, acontecimentos limites-que colocam em questão o ser do conhecido, do belo e do bom-, e se realizar plenamente através da incorporação do outro.
Para os que estimam os prazeres urbanos, e’ necessário que as urbs possuam habitantes em número, diversidade e em situação de mobilidade e proximidades tais para potencializar e (con)viver seus lugares dos conflitos e belezas, de visibilidade do estético e do trágico, nós de muitas trocas, encontros e desencontros.
Para Felix Guatarri, O alcance dos espaços construídos vai então bem além de suas estruturas visíveis e funcionais. São essencialmente máquinas, máquinas de sentido, de sensação, ... máquinas portadoras de universos incorporais ...que podem trabalhar tanto no sentido de um esmagamento uniformizador quanto no de uma re-singularizacao liberadora da subjetividade individual e coletiva.
Há uma intensa ambiguidade neste desejo humano de busca de sensações e acúmulos de sentidos. Amamos nos perder na multidão, assustadora de um lado, atraente e misteriosa de outro, admirando anônimos passantes, mas também recuamos, inseguros, diante da massa urbana impessoal, de mil caras e falas ruidosas. Para aprender a complexidade do mundo e’ exigência estarmos em companhia, corpos e mentes atentos, enfrentar a presença das múltiplas faces, curiosos diante das frestas, cortes materiais e simbólicos, onde se instalaram as marcas dos passados e dos anúncios de imprevistos futuros.
No entanto, são poderosos os instrumentos virtuais de captura de dados pessoais, que processam nossos movimentos e desejos, e instalados em aplicativos e algoritmos, manipulam prazeres e emoções.
Nas metrópoles, movendo-se por entre a rugosidade das construções e dos corpos, expondo nossos sentidos aos olhares e aos gostos vizinhos, à impressão direta das imagens e da multidão, poderemos ultrapassar o mundo virtual que congela, reduz, simplifica?
Conseguiremos superar as máquinas de poder, dotadas de crescentes inteligências artificiais, que antecipam `a distância vontades pessoais e assumem o controle dos fatos, determinando as ações futuras e as próprias resistências libertadoras?
Quantos olhares singulares enfrentar e aceitar para se aproximar do fundo escuro das coisas, ao segredo dos sofrimentos e alegrias, para sermos melhores, compassivos e demasiadamente humanos?

Quando tudo e´ publico, visível,
quando tudo e´ transparente, ruidoso, exposto, acelerado,
o segredo ama o silêncio.
Publicado em Movimentoonline.com.br
Kleber Frizzera
Dezembro 2019

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Uma vida urbana



Gastown e’ um bairro histórico da cidade de Vancouver, Canada’. Um bairro compartilhado por drogados e sem teto, por jovens millennials, onde circulam muitos turistas. Um bairro cult.
Nele habitam e circulam gente comum, artistas, estudantes, trabalhadores, de várias origens, etnias e nacionalidades, latinos, árabes, muitos asiáticos, chineses na sua grande maioria, 30% da população da cidade.
Em suas ruas e becos, entre edifícios em tijolos e estruturas de madeira, do final de século XIX e início do XX, convivem  diversidades sociais, econômicas e culturais de uma cidade metrópole múltipla, internacional, cosmopolita com 2.500.000 habitantes e um PIB per capita de US$ 44,337.
A Grande Vitória se aproxima de 2.000.000 habitantes para um pib per capita que não chega a US$ 7 000 dólares/ano. .
Nos interiores dos antigos edifícios industriais e armazéns restaurados, jovens moradores ocupam lofts e nos térreos, lojas de móveis, roupas e lembranças turísticas, ateliers e brechós, pizzarias, cafés e salões de beleza, misturam-se `as dezenas ou centenas de moradores sem tetos, jogados nas calçadas, acumulados em tristes filas nas portas de missões religiosas, de hotéis baratos, mergulhados em becos escuros.
Desenganados, desiludidos, desalentados, empurram carrinhos de compras entulhados de coisas, objetos em frangalhos, restos de roupas, embalagens e comidas, consumidos pelas drogas e pela solidão, caminhando curvados apoiados em andadores, homens e mulheres, rostos e gestos cansados, pedem esmolas, apontando aos transeuntes seus copos sujos de papel.
Gastown e’ o sítio original, o bairro onde se originou a cidade de Vancouver, implantada junto ao porto, ponto final da ferrovia Transcanada’, terminada em 1887, que atravessou todo o país, mais de 5 000 km, do oceano Atlântico ao Pacífico, do leste ao oeste.
Neste local, junto ‘as crescentes atividades portuárias, foram se abrigando os novos moradores que buscavam fazer fortuna no Oeste, do ouro, da madeira, das peles, dos negócios de lucros rápidos.
Com a expansão da cidade, inicialmente devido ao comércio com o Oriente e com a segunda guerra mundial, uma parte dos cais, as primitivas indústrias e armazéns, moradores e negócios foram se deslocando para outras localizações e Gastown e seus belos edifícios entraram em decadência.
Um processo de décadas renovou edifícios e vias públicas, atraiu turistas e novos empreendimentos foram ocupando novas ou antigas construções, tornando a região um ponto de atração turística.
Hoje, ao observador descuidado, acostumado com outros bairros ou cidades canadenses, higiênicas e homogêneas, a vida diária em Gastown parece estranha. Ao lado de um café, de uma padaria chic , de pubs e seus usuários descolados ou próximo de uma loja de modernas luminárias, utensílios de cozinha ou roupas da moda, grupos de pessoas se instalam precariamente nas calçadas, mal conseguem erguer seus corpos, dormem no meio de objetos descartados pelo consumo da metrópole.
Mas há poucos indícios de insegurança pessoal, roubos ou violências físicas. O Canada’ tem um dos menores índices mundiais de violência, -Em termos de homicídios, por exemplo, o Canadá inteiro registrou 1,8 mortes  para cada 100 mil pessoas em 2017, enquanto o Brasil chegava a 28,5 assassinatos para o mesmo número de habitantes
Por todo o dia, turistas e moradores enchem as lojas e restaurantes, as happy hours são muito animadas e os finais da semana, mesmo com o tempo frio e a chuva fina de outono, estão sempre movimentados, de grupos de jovens, de casais que buscam se encontrar em um bar ou para degustar um jantar em restaurante da moda.
Como avaliar este ambiente urbano?
Para quem esta’ a três semanas convivendo com estes eventos e lugares, sou possuído por sentimentos ambíguos. E se de um lado me encanta a variedade das ofertas sensíveis, de uma experiência pessoal diversificada, ambiental e eventual, me angustio com a presença destes corpos lançados as ruas, suas faces envelhecidas e olhos sem focos, vagando desajeitados, curvados, desequilibrados pelas ruas, tornados normais aos passantes indiferentes, que se deslocam para o trabalho, os estudos, os entretenimentos.
Não há uma repressão explícita ao uso das drogas e a política pública de redução de danos oferece assistência social e médica, consumo supervisionado, moradia temporária em hotéis e abrigos, muitas deles dirigidos para mulheres agredidas ou desassistidas.
O uso e venda da maconha está liberada em todo o Canada’, podendo ser adquirida livremente desde o ano de 2018.
Desfio os meus olhares surpresos, indecisos, assustados com tanta tristeza e ao mesmo tempo, admirados com tanta diferença e sofrimentos, surpreendidos com os muitos modos possíveis da vida urbana.


Kleber Frizzera
Novembro 2019