terça-feira, 12 de novembro de 2019

As desigualdades sociais e as cidades


Vancouver 1


Os últimos dados publicados pelo IBGE, expuseram o aumento do número de pobres e miseráveis no Brasil, atingindo, em 2018, um total de 13, 5 milhões ou de 6,5 % da população, e confirmando uma crescente e alarmante desigualdade econômica e social. Afirma o renomado economista francês Thomas Piketty, em seu recente livro de 2109, Capital e Ideologie, que quando observadas no período 1980\2018, estas desigualdades sociais econômicas voltaram a crescer também na maior parte dos países e regiões do planeta, se configurando como umas das questões mais inquietantes que o mundo se confronta no século XXI, ao lado dos desafios das mudanças climáticas e dos movimentos migratórios.
Segundo Piketty, os índices e os níveis de desigualdade no Brasil se assemelham aos dos países da África Subsaariana, da Índia e do Oriente Médio, esta sendo a região mundial mais desigual, todos países e regiões onde 1% da população, os mais ricos, tem ampliado a captura da maior parte, acima de 50%, da produção nacional e de eventuais crescimentos econômicos.
Quer sejam estas situações impulsionadas pelas receitas econômicas neo liberais, comprometidas com o capital financeiro, como aconteceu no Chile e na Argentina, ou pela acelerada expansão das novas tecnologias, de gestão, distribuição e produção, que ampliam o desemprego estrutural e o trabalho precário, as muitas desigualdades e a consequente concentração da riqueza tem impactado fortemente a vida nas grandes metrópoles.
Nelas, principalmente nas grandes aglomerações, onde imigrantes são atraídos por melhores e maiores possibilidades de sobrevivência pessoal, e para onde se movem os donos das grandes riquezas em busca de maiores lucros para os negócios imobiliários, as desigualdades e as segregações urbanas tornaram-se mais visíveis e mais trágicas. Centenas de milhares de moradores sem teto ocupam as ruas e praças de cidades, de São Francisco, Nova Yorque a São Paulo e milhões de seus moradores e trabalhadores não tem acesso a uma moradia digna devido ao brutal encarecimento dos custos das habitações, do transporte público e dos serviços públicos básicos.
Embora algumas administrações municipais, como Londres, Vancouver e Paris, tenham tentado criar normas e leis que buscam reduzir ou impedir a pressão dos grandes capitais internacionais na hiper valorização dos imóveis urbanos, deixados vazios `a especulação, ou deslocados para aluguéis de temporada, tipo Airnb, nem sempre conseguiram ampliar o acesso dos grupos mais pobres e mais jovens `as moradias qualificadas e aos melhores lugares e ambientes urbanos.
No Brasil, os que mais sofrem habitam favelas, edificações ou loteamentos clandestinos, compartilham apartamentos cada vez mais reduzidos ou no limites, vivem nas ruas ou em ocupações, enquanto os setores médios se refugiam em condomínios fechados, tornando mais evidentes e visíveis os impactos físicos e sociais que as desigualdades têm gerado nas cidades.
Se somarmos as estas tristes situações, os custos e os tempos gastos na mobilidade diária, no transporte público e as duras condições impostas pelo trabalho precário ou parcial, e’ cada vez mais difícil, difícil imaginar, propor e construir uma vida urbana mais justa, acessível, igualitária e democrática.
Na conclusão de seu livro, Thomas Piketty, ao criticar as justificativas institucionais contemporâneas das desigualdades, nos convida a colocar no centro dos debates atuais a questão da justiça, social, fiscal e climática, da propriedade justa, das fronteiras e da educação justas, e de um desenvolvimento sustentável, através de uma troca de conhecimentos, de experiências, no respeito ao outro, `a diferença e `a deliberação democrática.
Neste quadro de preocupações, as cidades brasileiras, onde habitam mais de 80 % da população nacional, tornam-se necessariamente o campo privilegiado das discussões e disputas dos projetos de sociedade, onde o futuro das condições igualitárias de acesso aos bens materiais e simbólicos urbanos, irão definir as condições plenas da vida comum e extraordinária, de todos nós e da sobrevivência do planeta.

Kleber Frizzera
Novembro 2019

publicado em Movimentoonline.com.br

sábado, 2 de novembro de 2019

Proximidade


Montreal 3
O jornal espanhol El Pais, publicou, em 24 de outubro de 2019, uma reportagem sobre uma longa pesquisa de mobilidade urbana realizada em 174 grandes cidades do mundo, que chegou às seguintes conclusões:
Las ciudades con una movilidad concentrada, o cidades jerárquicas, tienen una mayor calidad de vida. En ellas se usa más el transporte público, se hacen más trayectos a pie, hay menos coches, menos polución, e incluso se atienden mejor las emergencias. En cambio, las ciudades dispersas muestran los niveles contrarios’. Estas são as principais afirmações, cidades hierárquicas e de mobilidade concentrada têm maior qualidade de vida e menos poluição, que chegaram os estudos da equipe multidisciplinar do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC).
Para esta pesquisa, quanto `a mobilidade urbana, existem dois tipos extremos de formas, cidades que são como cebolas ou que são como cachos de uvas:’ por un lado, urbes que son como cebollas, por el otro, ciudades que funcionan como racimos de uvas’. Na Europa, afirmam, ‘la mayoría de las ciudades son cebollas: tienen centros compactos en los que los ciudadanos y turistas entran y salen mucho, rodeados de consiguientes capas en las que se va produciendo menos movimiento y menos densidad. Ao contrário, nos Estados Unidos, afirmam os pesquisadores, ‘abundan las ciudades que se parecen más a un racimo de uvas’. O paradigma deste tipo de cidade seria a região de Los Angeles onde : ‘muchos centros neurálgicos vibrando con movimiento, rodeados de zonas donde la gente se mueve menos’.
A discussão ate´ agora era definir que tipo de cidade seria a mais eficiente, e, ‘com este estudo descobrimos que a melhor e´ a concêntrica,’ diz Javier Ramasco, investigador del CSIC.
Será que estes resultados serviriam para pensar criticamente a atual situação da Grande Vitória, cuja forma se assemelha mais ao modelo de um cacho de uvas, dispersando no seu extenso território, múltiplos e desiguais centros e bairros, conectados por intervalos de baixa movimentação e atividades?
Já a algum tempo políticos e urbanistas , em todo o mundo, tem buscado, em várias cidades na América, Europa e no Canada’, reverter a dispersão urbana e a pluricentralidade, incentivando ações privadas e investindo em serviços, infraestrutura e lugares públicos, no sentido de fortalecer, qualificar e adensar os centros urbanos, históricos e comerciais, transformando-os em nós de cultura, educação, moradia, turismo e de negócios, pontos de mobilidade concentrada.
Enquanto isto, na Grande Vitória, nos deparamos com um centro histórico em frangalhos e aparentemente estamos conformados em viver em arquipélago urbano em que se transformou a nossa metrópole, de longos afastamentos, de longas distancias e de longos tempos de translação entre os seus muitos centros e as fragmentadas áreas habitacionais, impondo uma forte segregação urbana, custos e tempos elevados de transporte público e privado e uma ineficiente oferta de infraestrutura urbana e dos serviços pessoais e empresariais.
O estudo também mostra uma possível correlação entre compacidade de uma cidade e quanto ela e´ capaz e propícia para misturar e mesclar a sua população. Quanto mais hierárquica, mais centralizada, diz o estudo, e consequentemente, mais diversidade social: “La idea es que hay un lugar donde la gente de distintas zonas se encuentra”, e os centros urbanos são estes locais, informa a pesquisa.
Se há um futuro das cidades no século XXI, feliz, sustentável, igualitário e desenvolvido, ele será necessariamente vivido com menos circulação de carros privados nas zonas urbanas, mais movimentações a pé, em transportes públicos e em modais de baixos impactos, com centros concentrados, em habitação e trabalho, e dinâmicos, em educação e cultura, onde convivam as diversidades humanas em usos de todo o tipo, compartilhando espaços e ambientes públicos e democráticos

Kleber Frizzera
Outubro 2019


domingo, 20 de outubro de 2019

Montreal 2. Diversidade urbana



A diversidade social e´ atualmente uma das marcas distintivas de Montreal.
A cidade foi sendo construída por várias levas de imigrantes, franceses, ingleses, escoceses, irlandeses, de várias origens do leste europeu, e recentemente, de sírios, árabes, libaneses, haitianos e chineses que a compartilham com uma imensidão de estudantes, inclusive brasileiros, oriundos de todas as partes do mundo. 
Montreal aprendeu a conviver e respeitar as diferenças linguísticas e as multiculturalidades de seus moradores, além de revalorizar a história das primeiras nações, que ocupavam o território antes da chegada dos europeus. Hoje 40 % de sua população falam três idiomas, inglês e francês, línguas oficiais do Canada e mais uma língua de sua etnia ou nação, e 10 % falam quatro ou mais línguas.
A múltiplas diferenças étnicas e nacionais, e opções de sexualidades, práticas sociais e religiosas, movem um caldeirão de comportamentos que esta´ criando uma economia moderna e uma sociedade plural, onde a diversidade é uma das bases da igualdade e do desenvolvimento. 
Evidentemente não faltam resistências dos que se acham ameaçados em seus valores, mas a situação da economia, com alta oferta de empregos, acaba reduzindo a dimensão destes discursos xenófobos.
Enquanto isto, em alguns países, inclusive no Brasil, muitos se manifestam por uma sociedade desigual e subordinada a um único quadro de valores religiosos e familiares, condenando e discriminando as diferenças, de todos os tipos, e adotando uma pauta moral, atrasada e ineficiente nas competições internacionais da economia. 
No Brasil, vindo de autoridades públicas, estas afirmações acabam penetrando em todas as camadas sociais, incentivando os preconceitos e manifestações de ódios.
Evidentemente que em um país com muito menos desigualdades econômicas, como o Canada´, com reduzidos índices de violências, pode parecer mais fácil construir uma sociedade com uma convivência social mais colaborativa e solidária. Mas não basta nem e´ suficiente as suas vantagens econômicas, como o exemplo na manutenção de fortes preconceitos raciais e sociais, em um país rico como os Estados Unidos.
Uma das razões da diversidade vivida em Montreal inicia-se com um elevado investimento na educação superior e pesquisa instaladas, boa parte, no centro urbano. Hoje, milhares de estudantes estrangeiros mudam-se para Montreal para aprofundar seus estudos, contribuindo para uma grande presença de jovens de todas nacionalidades nos lugares públicos. Após os estudos, muitos permanecem, atraídos pelos empregos de alta tecnologia e pela qualidade de vida urbana
Canada´ e Montreal sempre acolheram refugiados políticos e econômicos de várias nações, desde irlandeses empobrecidos no século XIX e XX a sírios e árabes perseguidos no século XXI, e novos mecanismos de estímulos a investimentos, tem trazido um grande número de moradores asiáticos, principalmente chineses. 
Como professor e arquiteto tenho estudado se os aspectos físicos de uma cidade e os comportamentos públicos de seus moradores revelam e contribuem para partilhamento de uma experiência comum e para a convivência pacífica de uma diversidade social.
Mas seremos capazes de reconhecer estas qualidades nos usufrutos de lugares públicos e nas faces de suas construções?
Preliminarmente, nas poucas semanas que estou em Montreal, me surpreendo com a multiplicidade das vozes, gestos e vestimentas e com a extrema qualidade de seus lugares de uso comum, ruas, praças e parques, que se oferecem bela e generosamente ´a vida urbana.
Novos edifícios, convivendo com construções históricas, aumentam a densidade populacional e de serviços no centro, e junto com agradáveis e extensas praças e parques, parecem também potencializar novos usos e a presença de mais e diferentes pessoas nas vias públicas.

Reduzir as desigualdades e as segregações urbanas e sociais, investir fortemente na educação e na pesquisa, atrair jovens do mundo, respeitar as diferenças e qualificar os espaços urbanos, poderão contribuir para tornar a cidade da Grande Vitoria, mais diversa, feliz e igualitária?

Kleber Frizzera
Outubro 2019
publicado em movimentoonline.com.br

sábado, 12 de outubro de 2019

Montreal 1 Reinvenção urbana



27 de setembro de 2019
Centenas de milhares de pessoas, na maioria jovens, saem ´as ruas da cidade de Montreal, em uma massiva manifestação em defesa do planeta, exigindo ações imediatas no enfrentamento do aquecimento global e das mudanças climáticas.
Mais de 10% da população da região metropolitana de Montreal estiveram nesta manifestação.
Os cartazes são improvisados, feitos a mão pelos manifestantes, revelando uma pluralidade de expressões pessoais e posturas políticas, e um conjunto múltiplo de desejos e propostas, generosos e solidários.

Das 20 melhores cidades do mundo para morar, conforme QUALITY OF LIVING CITY RANKIG. 2019,quatro delas estão no Canada´, Vancouver, Toronto, Otawa e Montreal.

Montreal Metrópole, possui uma população em torno de 4 milhões de habitantes, fundada a 377 anos, se desenvolveu como cidade-porto. porto de transbordo, devido as corredeiras, no Rio São Lourenço, via de ligação entre o Atlântico e as férteis terras em torno dos grandes lagos. Margeando este rio e uma infinidade de canais de navegação e ferrovias, construídos no século XIX, foram implantadas inúmeras indústrias, que suportaram o grande crescimento econômico desta região dos Estados Unidos e do Canada´, ate´ as década de 1980\ 1990.
Nas últimas décadas do século XX, Montreal atravessou profundas crises, econômicas, pela desindustrialização, e devido a gestão fiscal, e precisou reinventar as suas bases produtivas para retomar o desenvolvimento econômico, urbano e social.
O resultado desta renovação pode ser observado nas infraestruturas públicas e ambientes urbanos- renovados, ampliados e nos investimentos imobiliários, para atender novos e jovens moradores, acomodar turistas e estudantes, e a locação de negócios mais diversificados, ligados aos novos dinamismos da economia mundial.
Do ponto de vista urbano, as principais ações foram as seguintes:
1.            Renovação de edifícios, galpões industriais e de áreas degradadas, localizadas nas margens dos rios e dos canais de navegação, próximas do centros urbano.
2.            Adensamento construtivo e populacional da área central, pela verticalização, redesenho de quadras e das legislações urbanas, incentivando os usos mistos e de pequena escala.
3.            Investimentos em qualificação de vias públicas, calçadas e parques, estimulando os deslocamentos a pé e de bicicleta e o usufruto cotidiano de lugares próximos das residências e dos trabalhos.
4.            Estímulo ao turismo e a cultura, preservação do patrimônio construído, proteção das paisagens naturais e implantação de novos equipamentos culturais e de entretenimento.
5.            Melhoria e ampliação do sistema de transporte público de massa e de outros meios de deslocamento individual.
6.            E o fortalecimento dos programas sociais, de inclusão social e econômico, de emprego e renda, acesso aos serviços públicos e respeito a´ diversidade étnica, cultural e social.

Podemos reconhecer os sinais visíveis destas ações, quando caminhamos na cidade de Montreal, observando;
1.            Uma alta densidade de pessoas nas ruas- jovens movimentando-se a pé e bicicleta-, e uma alta intensidade de ocupação de bares, ruas e parques, nos finais de tarde e finais de semana 
2.            A presença de grande número de novas construções expondo novas relações formais e estéticas com os elementos construídos, com a forma urbana tradicional e edifícios históricos
3.            A abertura de novas vistas e eixos de circulação, uma maior permeabilidade em áreas anteriormente fechadas, onde fábricas, armazéns e viadutos, eram obstáculos aos movimentos, aos acessos e os olhares dos pedestres.
4.            A presença pública das faces de múltiplas etnias e nacionalidades e da oferta de suas expressões culturais, como serviços e comércios especializados.
5.            A garantia de segurança pessoal na experiência urbana, nas relações humanas entre os corpos e pessoas nos espaços de uso comum.
Montreal e´ uma cidade metrópole completa.
Completa pelo direito ´a manifestações, políticas, ambientais, ´a segurança na vida urbana, oferecendo lugares belos, praças e parques atraentes, convidativos aos passeios, aos encontros, aos exercícios, as caminhadas.
Também como uma metrópole completa, em Montreal se partilha o passado, seus sítios históricos, suas paisagens e seus edifícios restaurados.
De suas muitas diversidades, se faz também uma metrópole, na convivência de tantas caras, origens, sexualidades, tantos corpos e vestimentas diferentes, das muitas falas e línguas que ocupam os ares, movem as conversas e as narrativas.
A Grande Vitória conseguira´ ser um dia uma metrópole completa?

Kleber Frizzera
Outubro 2019
Publicado em movimentoonline.com.br
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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Experiência e cidade



Segundo Josep Maria Montaner, crítico de arquitetura catalão, a visão feminista de revalorização da experiência  sensorial e corporal das mulheres, ao negar as pretensões machistas e masculinas de imposição de formas e normas de pensamento, de modos de vida e comportamento supostamente universais, resgata uma nova subjetividade própria, nômade, “através da afirmação da complexidade e da diferença, dos afetos e dos desejos, da realidade e da vida cotidiana e trabalho reprodutivo”.

Mas haverá uma singular apropriação feminina a tensionar e transformar os espaços públicos da cidade, quando os seus corpos, tornados livres, suas manifestações gestuais, verbais e de vestimentas rompem os limites do controle simbólico e real dos olhares dominantes? 

O aumento da violência simbólica e física contra os corpos femininos não seria resultado da resistência masculina a essas mudanças?

Vivemos uma sociedade da experiência, que segundo o filósofo Slavoj Zizek, é uma das características definidoras do capitalismo pós-moderno: “A mercantilização direta da nossa experiência, quando o que compramos no mercado é cada vez menos produtos e objetos materiais e cada vez mais experiência de vida, de sexo, de comer, de comunicar, de consumo cultural, de um estilo de vida, ...,consumidores de nossas vidas..” . Em última análise, afirma, “nós compramos o tempo de  nossas vidas”, como um desejo imposto de buscar transformar a nós mesmos em uma obra de arte Premium.
Anúncios de viagens, de restaurantes, carros, das últimas modas, de roupas e adereços, comportamentos e móveis, propagandas de todos os tipos de objetos e serviços, contêm sempre, como plus, essa oferta: o acesso privilegiado a uma experiência corporal única, particular a ser oferecida pelas coisas, pelos alimentos ou lugares turísticos, suas satisfações, prazeres e  lembranças inesquecíveis a serem registradas em fotos, corpos, músculos e espíritos.
Para o filosofo francês Gilles Lipovetsky, a ideia de um marketing sensorial produz como um “reencantamento do mundo, que conduz a viver a cidade [...], como um parque de diversões, que e´ consumido com a paixão e o prazer devidos”, teatralizando e espetacularizando a vida ordinária, e assim, “a cidade gera novas experiências, suscita emoções, cria sensações”. Busca-se uma atmosfera especial, de um contínuo entretenimento, e mais do que nunca, o mundo hipermoderno é “o da estética mercantil e do comércio consumista que invade e reestrutura o espaço urbano e arquitetônico”.
Ao mesmo tempo, a expansão das experiências pessoais propiciadas pela realidade virtual em jogos e viagens, ap, parece fortalecer o individualismo, estimular o prazer solitário e o hedonismo descarnado, em que não mais precisamos nos debater diretamente com a matéria das coisas para o desfrute da vida.
Ao investir na produção de experiências virtuais ou reais, múltiplas, diversificadas e ofertadas a gostos e apreciações individualizados, tendemos a ultrapassar a satisfação imediata de necessidades básicas, biológicas ou sociais, potencializando uma contemplação e um gozo sensível, afetuoso e criativo? 
Ou, ao contrário, nos mantemos subordinados a uma lógica capitalista, inserindo a vida e o afeto humano em um mercado volúvel, masculino, violento e consumista?

Nestas complexas e atuais oposições, a crescente presença feminina nos espaços públicos, ocupando e transformando, de múltiplas formas, com seus corpos e desejos os lugares do mundo, parece romper esta dicotomia, revelando e propondo novas práticas de aprendizado e de convivência sensível e amorosa humana.


Kleber Frizzera
Setembro 2019

sábado, 14 de setembro de 2019

Viver e morar, a partir do centro


O governo do estado esta´ transferindo boa parte das instalações de suas secretarias para o centro da cidade de Vitória, retomando uma posição física e simbólica que ocupou por séculos, desde quando o atual palácio Anchieta, deixou ser propriedade dos jesuítas, expulsos do Brasil, pelo Marques de Pombal, em 1757. 
O governador Jerônimo Monteiro, 1908\1912, demarcou definitivamente este símbolo, através da reconstrução da antiga residência e igreja de Santiago e da escadaria Barbara Lindbergh, em estilo eclético, tornando visível uma nova postura política, assumida, após a proclamação da república, pelo poder local e a sua burocracia estatal, instalada no centro.
Por todo o século XX, a imponente escadaria e as duas novas fachadas do palácio, em cima do outeiro, uma voltada para o porto, a avenida Jeronimo Monteiro e sua riqueza comercial, e a outra de face ao poder Legislativo, instalado sobre a igreja da Misericórdia, ao Judiciário, na rua Pedro Palácios e  á catedral de N.S. de Vitória, deixaram expostas, em marcas urbanas e arquitetônicas, os detentores dos poderes, materiais e simbólicos, do estado do Espirito Santo. 
Aos seus pés, no parque Moscoso, nas ladeiras da cidade alta e em torno da praça Costa Pereira, foram se instalando as renovadas moradias e negócios dos comerciantes, funcionários públicos e proprietários rurais, enquanto os trabalhadores, portuários, comerciários e da construção civil, se agruparam do morro do Quadro ao bairro de Santo Antônio.
A partir destas posições centrais relativas, se formularam, se debateram e se enfrentaram os projetos de desenvolvimento, econômico, cultural e social do estado, suas realizações e fracassos.
O afastamento dos órgãos do governo estadual e dos moradores de classe média do centro histórico, foi simultâneo, a partir da década de 1970, com a concentração fiscal e decisória do governo federal e da expansão do poder das grandes empresas, industriais exportadoras, que com o tempo foram transferindo seus centros decisórios para fora do estado e mesmo do país. 
O espalhamento das localizações dos órgãos públicos estaduais acompanhou os seus esvaziamentos institucionais e suas incapacidades de formulação e implantação das políticas públicas, de infraestrutura e sociais, substituídas, no tempo, por uma austeridade financeira vazia, sem frutos ou resultados reais para o estado e a população.
A transferência anunciada das secretarias estaduais pode representar, mais que uma postura simbólica, uma decisão política de retomar o protagonismo da esfera pública no sentido de, a partir do centro, gerar ideias, debater iniciativas e desenvolver ações comprometidas com uma sociedade capixaba, mais justa e igualitária.
Dois desafios se apresentam  para este novo momento. 
Constituir um processo democrático, amplo, que inclua a participação decisória das muitas diferenças e particularidades locais, e capaz de acionar e impulsionar um projeto estadual  inclusivo, econômico e socialmente. Um projeto, flexível para os novos tempos, mas determinado para enfrentar as desigualdades sociais e regionais, e que aponte e invista em um desenvolvimento diversificado, atento ´as possibilidades das novas tecnologias e dos processos criativos e ´a crescente necessidade de oferecer saúde, educação, emprego e renda a todos os cidadãos.
Um outro desafio, de caráter urbano, será dotar o centro histórico das condições ambientais, para que, acompanhando as novas secretarias, seja repovoado, por habitações sociais e destinadas para jovens, que abrigue lugares potencializadores de práticas sociais e produções culturais inovadoras e atraentes. Neste contexto, preocupante a informação da transferência da empresa PicPay, do centro de Vitoria para Av Leitão da Silva.
As cidades de sucesso, em todo o mundo, oferecem aos seus cidadãos, um ambiente seguro, adequado, múltiplo e aberto, que propicia o contato com experiências sensíveis, corporais e espirituais, estética e eticamente, condições para vida privada e pública, feliz e democrática.
Estaremos a partir do centro, produzindo as condições urbanas, políticas, econômicas e culturais de um outra metrópole e um outro Espírito Santo?

Kleber Frizzera
Setembro 2019
Publicado em Movimentoonline.com.br

sábado, 31 de agosto de 2019

Andando

Andando
E´ preciso arrancar alegria ao futuro.
Maiakovski

Perder-se em uma cidade é uma forma amorosa de conhecimento, um conhecimento ambulante, uma maneira doce de se aproximar de suas complexidades, de suas diferenças, identidades, deixando-se levar pela curiosidade, pelo acaso, pelos contatos surpreendentes com os pequenos acontecimentos e com as estranhas marcas inscritas no chão e nas paredes.
Quando andamos não o fazemos apenas para chegar a um destino, diz o escritor português Afonso Cruz, e nossa caminhada não se mede pela distância, mas sim pelo modo como a paisagem nos comoveu. Pode não ter razão, objetivo, destino, utilidade e é exatamente aí que reside a riqueza do passeio. 
Isto só é possível se mergulharmos nas cidades de forma lenta, deixando-nos atrair por leves indícios, atentos aos pequenos sons, ruídos e falas que extravasam das janelas entreabertas no calor dos dias. Cantos atraem marinheiros de terra firme, que se deixam levar, encantados, ´a ruas e escadarias sem fins, e logo afastam, ao longe, os barulhos da cidade enlouquecida. 
`A noite, no escuro, espectros deslocam-se de seus esconderijos, revelam, em silencio, os seus segredos temporais ao flaneurcaminhante, ao amigo das sombras e dos mistérios.
Caminhando, experimentamos múltiplas sensações, seja numa peregrinaçao  longa, um estímulo a contemplação da natureza ou curta, um contato com o bairro, quando vamos a padaria. Andando, cheiros anunciam almoços e jantares, o sabor de cana e do pastel, distorções e reflexos desafiam as razoes iluministas, divergem os entendimentos dos olhares,sensíveis tatos importam prazeres, ao gozo, a cada ladeira e paralelepípedo palmilhado.
Não temos mais tempo para tais distrações, submetidos à tirania da velocidade, da pressa, do tempo encurtado. Acelerados, o Wazenos informa a rota mais rápida, de carro, ônibus, bicicleta. A pé, apenas para aqueles que seguem devagar, desacelerados pelo desemprego, desalento, velhice ou aposentadoria, que ocupam os tempos mortos dos bairros e da cidade. E também para crianças e estudantes, que na volta das aulas, apoiam suas brincadeiras nos muros e meio- fios, sem pressa para as conquistas vãs.
Neste mundo contemporâneo, o que importa é a velocidade dos bens e das pessoas. Os “encontros” se resumem a experiências onlinena impessoalidade vivida nos intervalos dos percursos, sem mais abertura para os sentidos e as sensações nos deslocamentos.
Caminhar passou a ser apenas um atributo de saúde, um exercício obrigatório, uma corrida rápida, capaz de prover disposição ao corpo e o espírito, aos domingos e feriados.
O movimento corporal no espaço, diz YI-fu Tuan, precisa se repetir para aprender a navegar, e’ preciso, confirma o poeta, navegar estabelecendo marcos de orientação, em um movimento intrigante da experiência da escala humana, que se da’ no enfrentamento sensível das resistências, como nos labirintos.
Isso mais se torna estranho que nas novas obras e projetos, Av. Leitão da Silva e nos desenhos propostos para a Avenida Vitoria, inóspitas e agressivas, os locais para os pedestres sejam desqualificados, sem árvores, sem dimensões suficientes para uma experiência simbólica, que nos faça, lentamente, apreciar e reconhecer as coisas e as pessoas com quem partilhamos um tempo comum no mundo.
Ps. Os corpos se apresentam, tornam visíveis as suas particularidades e desejos, quando, verticais, se movem e se apresentam na ruas e calçadas.

Kleber Frizzera
Agosto 2019