domingo, 9 de abril de 2017

Domingo



Emerge do escuro, em pontos e pingos, a luz, desfiada em longos colares,
refletidos na agua e na areia em noite quente.
Suspendo o olhar e o gosto, e deixo estar, em zumbido, o rotineiro fundo de ruídos deslocados, das ruas e janelas abertas, oriundos da vida em espetáculo ligeiro.
Aguardo, enquanto espelho em brilho, as coisas do mundo.

Ao lado, nada sustenta a vontade ou esgota o desejo, dobrados em fardos de cansaços e perdas,
Desfeitos.

Sobram como sempre, migalhas de mim.



sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Acertos e estranhamentos

Onde se expõem o novo?
Na nova cidade, de luzes e riscos prenhes de róseo futuro? quando,
protegidas suas portas e muralhas pelo anjo Gabriel, pelo arcanjo Miguel, ou
nos intervalos, deixados vazios entre as partes, frestas, onde ronda o vento e silva os ares e ocupam os gentios?
No embate público ou nos macios interiores, protegidos, tudo se acumula, tudo se multiplica em afetos, mal se articulando,
ou quando juntos, se alinhando `as afecções coletivas, que nas ruas, seus desejos escapam dos espíritos maus ou bons, espectros que rondam as cidades,
explorando novas práticas, sexuais, politicas, das falas e dos gestos, inventando outros lados e inúmeras                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      possibilidades, que se movem rapidamente, jovens e velhos, coletivos e turbas desgarradas, tribos e gangs, ordens ou dispersos, feitos de claros e escuros olhares se cruzando em ódio ou amor e conti’nua disputa nas ruas e nos longos campos e montanhas?
Nada há mais a orientar, nem o tempo, nem o norte, nem a linha ou a direção, paralisado, determinado somente, o desejo                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          em esvair novidades e vontades na noite perversa.
Que sobra.
Reflexos, olhares, desvios, e o gesto incompleto.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Pola

Pola foi chegando como o sol na janela. ... 
Entrava aos poucos, roubando-me a sombra, e Horácio começava a queimar-se ..... 
Ficava tostado.
Ficava feliz.

Julio Cortazar

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Restias

Quando o escuro da noite ocupa a tarde de inverno e o ruído da tv anuncia o fim do dia, acompanho como a luz do poente se debruça em macias dobras, sobre as nuvens rosas e brancas, que brilham no crepúsculo, em torno do mestre Alvaro.
Um seco gosto invade o palato, irrompe duras e afiadas dobraduras sobre o resto de mim, gasto o corpo e alma no esforço desdobrado da inva’lida paisagem e do estupido pensamento.
Logo derramo, em pequenas gotas ao consumo, o agridoce sabor de meus eventos avariados, limitados `a uma  réstia da memória, em luz refletida nas onduladas paredes de cal da casa, em longas  listas de sombras e escuras lembranças.

Quando me arrependo, nada fiz a perder de vista.

domingo, 8 de maio de 2016

Camélia


A luz do dia ocupa o pensamento, 
desdobra os gestos desfeitos da noite indormida, 
anuncia a jornada, 
incompleta.
Cada movimento, em vão, refaz
O percurso interrompido,
O caminho.

Igual a tantas, a camélia reflete em branco, o sol,
aguarda o olhar.
Difere o instante do anterior, o gosto do café e migalhas escapando pela toalha e pelo chão, enquanto,
Imagino o impossível, o desejável instalado após o outeiro,
a glória desfiada de fracassos e batalhas, pequenas, em série cotidiana de deslocamentos dos batedores,
de inúmeras divisões tentando cercar e capturar o inimigo.

Sabe a hora, 
o acontecer se limita a vontade de vencer.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Ontem

Abrigada
Em seus olhos negros.
Ilusão, saudação, despedida.

Afastados, o olhar desencantado aprecia o ônibus,
A distancia
Afasta-se, jovem agora.

domingo, 20 de março de 2016

Vejo a luz

Vejo a luz, o caminho e a salvação,
Ouço o lado, o ruído, a confusão,
Extrema maldade.

Aborreco-me, solitário, com os fios da vida,
Estendidos os panos coloridos.
Vermelhos e rosas.