segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Vontade

Fala a macia espera da tarde,
Diz o momento certo, na calada, na juntada, na mesmice espera,
Diz. Prediz.
Lamento, mas há poucas sementes na terra.
Ou nenhuma,
maior a vontade,
maior a desilusão.

domingo, 9 de novembro de 2014

sentimento do mundo

sentimento do mundo
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos, minhas lembranças escorrem e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu estará morto e saqueado, eu mesmo estarei morto, morto meu desejo, morto o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento. Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras, humildemente vos peço que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista que habitavam a barraca
e não foram encontrados ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.
Carlos Drummond de Andrade

1940

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O CARRINHO DE MÂO VERMELHO


tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho


esmaltado de água de
chuva

ao lado das galinhas
brancas.


william carlos williams

trad. jose carlos paes

sábado, 13 de setembro de 2014

Linhas


Imagine.
No canto da sala,
esvai o suor e o doce cheiro da noite
invade a varanda e os quintais.

Desmanche
A renda incompleta, os laços e as fitas, dobradas.
O risco de carbono 
azul, escorrega
Do bordado, do colo da mulher.

Invente
Outro projeto, sentido, outro lugar, 
quando,
Sobraram poucos pontos a
Costurar.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

o meu amor

Nas ruas da cidade caminha o meu amor. 
Pouco importa onde vai no tempo dividido. 
Já não é meu amor, todos podem falar-lhe. 
Ele já não se recorda. 
Quem de fato o amou e de longe o ilumina para que não caia?


rene' char

 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Enfim



Aceito a hora,
A pressa,
O contido desejo da chegada.

Desprezo a noite fria,
O alento e as damas, da noite,
Inebriando o corpo exangue.

Intimo tua voz,
Ao desembarque esperado,
enfim!

sexta-feira, 27 de junho de 2014

encanto


me pergunto, 
saberei a hora da verdade, o tempo que resta, o dia que acorda,
claro e brilhante?
sem gosto, sem jeito, sem dor.
irei encontrar a porta da chegada, o mês da primavera
o abril de outros, e dos lilases.?
e, finalmente, na cova santa, dos leões,
pela curva finda da pergunta, com o jeito frouxo da gravata,
dobrarei a massa linda da montanha azul.

duas vezes dez, três vezes oito, 
uma multidão espirra seus sonhos e ilusões, pedra a pedra 
nas ruas do encanto e da solidão,
quatro vezes.


abril 2014