segunda-feira, 5 de setembro de 2022
quarta-feira, 17 de novembro de 2021
Espirito Santo
espírito santo
Há sempre um gesto incompleto, uma decisão atrasada, uma vontade reduzida, que parece ocupar os tempos e os espaços nas histórias do estado do espírito santo, de seus repetidos isolamentos e afastamentos, de seus projetos fracassados e recomeços infelizes.
São histórias que desde a ocupação original portuguesa somaram e acumularam violências, contra os índios, contra a natureza, negros e mulheres, reproduziram distorcidas as formas capitalistas da exploração do território, dos corpos e das vontades, esvaziadas de seus sonhos.
Se no século XVIII, o limite de acesso às minas gerais foi imposto pela Coroa Portuguesa, e se podemos deslizar a outros a responsabilidades pelo extermínio dos índios e pela desregrada imigração europeia, nos coube, em própria conta, a metódica destruição das matas, o ódio às mulheres e a dependência de um modelo econômico concentrador de rendas.
Assim, não é surpresa termos hoje, uma elite empresarial e política tão conservadora, racista e excludente, uma classe média agarrada aos seus valores monetários rentistas e uma população que se recolhe a uma rala esperança de uma salvação em vida pós morte. Naturalizamos os feminicídios, o preconceito racial, as desigualdades econômicas e sociais, as segregações urbanas, aceitamos desejos limitados que não se afastam dos mapas da província.
Em um século XXI que não perdoa o isolamento, cujos impactos ambientais e sanitários não respeitam fronteiras e barreiras e quando a mudanças tecnológicas atropelam modos de vida e práticas tradicionais, extinguem empregos e culturas, somos incapazes de pensar o diferente, o desigual, o outro lado, submetidos aos repetidos gostos e procedimentos banais.
Talvez seja assim mesmo e a condenação superposta por séculos, inscrita nos nossos modos, falas e comportamentos seja tão profunda incisão, que não há meios de reinscrever um outro jeito, e assim, aceitamos soluções meia bomba, desde governos que entesouram saldos a outros que anunciam arranjos descosturados para propor uma universidade estadual.
Acostumados a sabores insossos, a viver em uma quase metrópole, a passar resignados por um cais das artes abandonado, a acompanhar projetos interrompidos, sobra-nos os restos e as migalhas para quem se acostumou estar `a margem, do país e do mundo, sentado na avenida beira mar, olhando os navios que chegam e partem dos portos, enquanto o velho centro se desmancha em pó e cinzas, em nossas costas.
No tempo de difíceis escolhas, de tempos difíceis de ódios e violências, de pandemias e lock down, tempos de mudanças climáticas e riscos globais, tempos de decisões, poderemos pensar outras rotas, desfazer os laços que nos mantiveram em tanta aflição?
Quando o real parece nos escapar pela imaterialidade do mundo virtual, e os corpos tornam-se híbridos, corpos cyborgs, onde os lugares e as coisas se desmancham nos ares, diante das informações, sem limites, e cada contato e’ intermediado e deformado pelas imagens, haverá uma saida que reconstitua uma experiência intensa do local onde aportamos nossos barcos e esperanças?
Kleber Frizzera
Novembro 2021
sexta-feira, 5 de novembro de 2021
Um outro normal
Um outro normal
e’ possível?
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
....
Por que tão alto luzia?
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
Manuel Bandeira
A comunidade europeia anunciou que 2035 sera’ o ano limite para a produção e comercialização de veículos movidos a motores `a explosão ou híbridos, que usem gasolina, gás natural ou diesel como combustível.
Pesquisa publicada pelo El Pais, em 01/ 11/ 2021, demonstra que espanhóis são favoráveis a esta proposta, como outras, de proibir voos comerciais entre cidades a menos de 300 Km e servidos por trens de passageiros. Na Espanha, em áreas urbanas acima de 50.000 moradores, desde 2021, já’ estão proibidas as movimentações de veículos poluentes.
Completa a reportagem: “La crisis de la covid ha tenido un impacto en los hábitos de movilidade. Por ejemplo, el 56,9% sostiene que realiza más desplazamientos andando y el 20,6% declara haber incrementado el uso de la bicicleta. Además, el 9,3% asegura que usa más el patinete eléctrico.”
Em todo mundo, como na Espanha, crescem as preocupações com as mudanças climáticas que colocam em risco as condições ambientais do planeta e aguarda-se que países assumam compromissos mais efetivos, a partir da conferência do clima da ONU COP 26, no enfrentamento deste desafio global.
Estamos o Espírito Santo e a metrópole, nos preparando para estas possíveis mudanças?
1. Quais os impactos no consumo de aço, petróleo e de minério de ferro no mercado internacional, principais pautas de produção e exportação capixaba?
2. A metrópole esta’ se ajustando para as alterações dos hábitos de deslocamento, restringindo o uso e circulação dos carros e estimulando os deslocamentos não motorizados?
3. O plano de desenvolvimento metropolitano, aprovado em 2018, sairá das gavetas do governo do estado, e sera’ referência para as decisões públicas de articulação e mobilidade urbanas?
Viagens ao exterior, divulgando, em fóruns internacionais, boas intenções para a redução da emissão de gases, proteção e recuperação de florestas, são inúteis e pouco efetivas. As mudanças climáticas, em nível global, as poluições locais, geradas por indústrias e processos extrativistas, exigem uma revisão do modelo econômico, baseado na concentração dos capitais, na dependência das exportações de commodities e na exploração do trabalho precário.
Um futuro saudável exige reconverter a economia local. O estado tem experiências significativas e iniciativas criativas na produção de bens e serviços, que agregam novas tecnologias virtuais e pragmáticas, capazes de estabelecer uma nova base econômica verde, adequada aos novos e exigentes tempos. Estamos formando jovens talentos, explorando pesquisas e processos, acumulando capacidades intelectuais e artísticas, uma base crítica que e’ o fermento e a impulsão de outros meios de produção, distribuicao e consumo.
As cidades, onde vivem mais de 80% da população e’ o locus, o local onde se encontra, em potência, estas possibilidades futuras. Investir na educação e saberes, financiar projetos inovadores, tecnológicos e culturais, e’ um caminho, que passa pela redução das desigualdades urbanas, melhoria da qualidade da mobilidade, e qualificação e ampliação dos espaços públicos.
Kleber Frizzera/ novembro 2021
sábado, 4 de setembro de 2021
Migalhas
Inverso, a parte, a coisa, o trecho, o pedaço do bolo, o último
Na mesa, na toalha xadrez, no prato de
Sobremesa, distrai
As migalhas e o gosto travo de ontem.
A chaleira apita o dia, despeja vapores, condensa
Água e calor nas xicaras de café com leite,
pão com manteiga,
As migalhas no chão.
Espreito o dia, o sol e os ventos, a praia, ainda vazia
E branca reflete, sem sombras, insatisfeitas
Madrugadas,
As migalhas de um amor desfeito.
Setembro 2021
segunda-feira, 3 de maio de 2021
sonho
Sonhei um beijo, único,
Deflora a boca, úmida,
Refaz o gosto, perdido prazer de noites indormidas.
3.5.21
terça-feira, 1 de dezembro de 2020
Sempre
Sempre acontece, o mesmo, o gosto azedo, o cheiro doce, o toque fresco, o som em fúria, acordam cedo
o travesseiro, suado, impressas marcas, vincos, os fios de cabelo, a mancha do vinho, e sim;
quente mais um dia, o sol invade, a agenda antecipa,
o estomago, a laringe e o coração.
A ladeira desce para a cidade,
Aos ventos brisas cheiros marítimos, carros em turbilhão,
no elevador, nas ruas e na contramão,
pedestres caminham e sombras no chão.
Peles morenas anunciam desejos remotos, palavras vãs, gestos
deslocam os ganhos intermitentes, gastos e gostos de proximidades de Natal.
Novembro 2020
terça-feira, 22 de setembro de 2020
Pertencimento urbano
Pertencimento urbano
ou a vitória dos bárbaros
Digo o nome da cidade
- Digo para ver
Sophia Andresen
Alguns autores afirmam que a cidade de Vitória e’ um lugar de forasteiros, oriundos do interior, de outros estados vizinhos, Rj, Mg e Ba, que não compartilham um pertencimento com o mundo local, com as suas histórias, paisagens, culturas, enfim, não se identificam com seu patrimônio imaterial ou natural e construído, com os seus valores e a sua preservação.
Nômades, descomprometidos com os ambientes que vivem, seriam como Atila, rei dos hunos, que comandou o saque e destruição de Roma Antiga, bárbaro, incapaz de reconhecer os valores estéticos e artísticos da capital do decadente império.
Se isto for correto, pouco importa aos nossos bárbaros contemporâneos deixar abandonada a cidade histórica, fortificando-se em seus condomínios e compartilhando pouco interesse pelos lugares naturais e artificiais, que compõem ou compuseram, antes dos estragos seculares, o ambiente metropolitano.
Como indícios, poderíamos anotar o descaso pelo centro de Vitória, a ocupação predatória do planalto de Carapina e do litoral de Vila Velha, sem falar na obsessão pelo alargamento das vias, como a cidade fosse um churrasco de picanha, algo a ser retalhado na mesa de um açougueiro, ou de um coronel.
Embora os sintomas sejam muitos e evidentes, tendo a achar que outras causas contribuem para estes comportamentos, tão extensos e generalizados:
1. A desqualificação das coisas do estado e da cidade diante das metrópoles nacionais, principalmente o Rio de Janeiro, desde o futebol `as manifestações artísticas e intelectuais,
2. A ideologia da propriedade privada colocando a sua proteção e segurança como um bem supremo, acima de qualquer interesse público,
3. O baixo nível de produção, oferta e consumo de bens culturais e uma desvalorização ou desconhecimento dos produtos artísticos locais,
4. O forte preconceito racial, dirigido contra negros, índios e caiçaras e `as suas manifestações e práticas sociais, artísticas e culturais,
5. O perfil religioso conservador, moralista, o comportamento machista misógino, adicionado uma grande rejeição de modos de vida não convencionais,
6. O progresso e o desenvolvimento econômico entendido como uma vitória, obtida pela exploração e transformação, uma conquista contra a natureza.
E dai’?
Mapas, desenhos e romances, textos descritivos de lugares, de viagens e eventos, foram ferramentas que a partir do século XVIII, contribuíram para a formação simbólica dos estados nações, delimitando e valorizando recortes geográficos e culturais, molduras que deram forma a um território partilhado. Somados ao uso de uma única língua, uma única história e a subordinação a um único poder, estas narrativas fixaram e definiram um povo, um país, uma identidade.
No processo de globalização, nações foram desfazendo suas particularidades, submetidas `as lógicas econômicas e simbólicas dos mercados internacionais, e gerando, em oposição, movimentos de resistências `as migrações e invocando o retorno de práticas tradicionais.
Com estas transformações mundiais, também cresceram iniciativas de autonomias regionais, que tentam reconfigurar fronteiras julgadas artificiais, pretensas causas da perda de importância econômica e política de um dado território.
Cidades e metrópoles, em todo o mundo, têm investido em inventar suas identidades próprias, que explorem e destaquem as suas capacidades tecnológicas, intelectuais e posições geográficas, visando disputar posições de destaque e importância na acirrada competição econômica internacional.
No Espírito Santo, um discurso semelhante, o capixabismo, que soma uma pitada do ressentimento, um preconceito com os migrantes baianos a uma pretensão de sermos capazes de um desenvolvimento autóctone, foi estimulado por mais de um governo estadual, não conseguiu emplacar e atrair muitos seguidores.
A quase metrópole Grande Vitória, com sua crescente dispersão geográfica e populacional e uma rígida segregação social e funcional, não estimula ações colaborativas, e coloca, em dúvida, a capacidade política de agregar esforços e articulações, somando contínuos fracassos `as seguidas tentativas de um planejamento e intervenções regionais.
Mas não seria a ausência de uma identidade ou uma lealdade metropolitana, as fontes determinantes deste impedimento, e quando somadas `a perda de uma centralidade, os motivos que impedem soldar, sobre as diferenças sociais e econômicas, uma potencialidade criativa de uma vida social, política e cultural partilhada?
O Espírito Santo e a cidade de Vitória não possuem um único museu ou memorial que preserve, resgate ou divulgue a história da sua ocupação e de suas transformações. Em alguns municípios restam algumas casas que expõem objetos antigos, na sua maioria laudatórios da imigração estrangeira, europeia.
Índios, pobres e negros, exceto no Mucane, não fazem partes destas comemorações.
Pesquisas acadêmicas, movimentos e organizações sociais, em vários momentos, estudam, valorizam e intentam proteger monumentos e bens imateriais, mas além da nossa dupla, panela e moqueca, utilizadas por todas as camadas sociais para alimentar uma identidade capixaba, continuamos a conviver com o lamento de uma perda anunciada. E não chorada por muitos.
Outros ditam, por décadas, ser a atividade turística a flama que uniria a economia à valorização e proteção dos ambientes históricos e naturais, e continuam aguardando que estrangeiros reconheçam o que não respeitamos
Estaremos condenados, sem identidade, a nos manter periféricos, exportando sonhos e jovens capacitados, remoendo fracassos e projetos abortados, sobrevivendo, em pequenos desejos, `a dura realidade da desigualdade, que separa, a prepotência, que manipula, a individualidade, que egoísta, incapaz da solidariedade e da cooperação, se distrai no consumo e na acumulação?
Kleber Frizzera
Setembro 2020