quarta-feira, 27 de maio de 2020

Horas vazias

 

Horas vazias

O extraordinário do cotidiano e’ superar o próprio cotidiano

Henri Lebfreve

 

Impostos, pela quarentena, ao cotidiano mais comum, igual, repetido, desfeitas as distrações dos movimentos inúteis do dia a dia, da circulação apressada, sem sentido, do ilusório consumo das coisas e dos lugares, frente ao compulsório recorte de nossa casa, assombra-nos, como um fantasma, a profunda banalidade da vida.

Comer, assistir tv, dormir, ...

No dia a dia, o mesmo tempero, a mesma verdura, o mesmo almoço requentado, a mesma pizza pelo telefone, que nos recordam, em ausência, os profundos gostos e sabores da mesa materna, dos cheiros das comidas no calor do fogão de lenha e o suave toque dos cotovelos assentados sobre a lisa mesa de madeira.

Nas telas, a Netflix repete em sequência uma mesma história, em um streaming infinito, com idênticos roteiros de perdas e reconciliações, anuncia uma sequência de séries, de assassinatos, de crimes e punições, de zumbis e amores românticos, de guerras e heróis, repete, na maioria dos filmes, um mesmo fim, feliz.

Nas leitos, o colchão não contém, macio, o mesmo prazer anterior dos acanhados minutos roubados da rotina e do trabalho, o despertador não cobra mais insistente, o esforço de levantar-se apressado, e sobra, `a consciência desperta, um maior número de horas a serem preenchidas, livres, vazias.

Assustados, afastamo-nos, diante do olhar da tela, que não nos reconhece, na ausência dos ruídos da multidão, das presenças das ruas, da ressonância da convivência nas lojas, nas escolas e nos bares.

Contemplamos, preocupados, como a comunicação digital esta’ debilitando o vínculo comunitário, desfazendo o saber corporal e desvanecendo uma memória e uma identidade corpórea, individuais e comuns, que consolidaram práticas, rituais e encenações coletivas.

Mas, o isolamento social está estimulando inusitados pequenos prazeres da vida doméstica, quando o espelho duplica os mesmos lugares, repete conhecidas imagens, e nos ensina, ao ritmo solar de cada dia, outros gestos, mais lentos, apurados, elaborados. Gestos de pequenos afazeres comuns, da limpeza da casa, da feitura da comida, da leitura solitária, do desenho do bordado sem fim, que aguarda o retorno de Ulisses. Gestos silenciosos de afetos e carinhos.

Encerrados em nossa casa, fustigamos outros gostos e interesses, que provocam o desfrute dos prazeres de uma vida cotidiana, o reconhecimento dos sentidos no discreto, no insipido, no banal, quando, escreve Byung-Chul Han, em seu novo recente livro La desaparición de los rituales: Una topología del presente:La repetición descubre una intensidad en lo no excitante, en lo discreto, en lo insípido, faz habitável o tempo, nos permite celebrar o tempo e viver a experiência profunda do simbólico.

Para quem espera sempre o novo, estimulado pelas informações  acumuladas da economia neoliberal, que elimina a duração das emoções, para ampliar o consumo, por cima do que já existe, “El sentido, es decir, el camino, es repetible,..... aunque al mismo tiempo algo me ha dado una alegría al entrarme por el rabillo del ojo (la luz del día o el crepúsculo).

Incluso una puesta de sol es un acontecimiento y, por tal, irrepetible.”, a ser admirado, novidade, em cada fim de tarde.

Para Han, o capitalismo não gosta da calma, tenta impor, aos corpos e aos espíritos, o ritmo acelerado do trabalho alienado, acelera a comunicação digital e o home office, onde não há mais repouso, onde não há mais sossego, onde não há mais intervalos, onde não há’ mais silêncios. Pressionados incessantemente a produzir, a “vida fica totalmente degradada, profanada”.

Na pós pandemia será’ urgente preciso renovar os tempos da festa, da celebração do sublime, o tempo da poesia, diz Franco Berardi, como “ o ato de fazer experiência com o mundo pelo embaralhamento dos padrões semióticos”, que pode mostrar um espaço de sentido que não preexiste na natureza, e que não tendo como fundamento a convenção social, vai além dos limites da linguagem, e “revela uma esfera possível de uma experiência ainda não experimentada”.

Haverá’, para gozo e admiração, uma poesia urbana, de ventos e coisas, palavras e acontecimentos, capaz de revelar indizíveis significados e unir esforços híbridos, em nossas casas e na vida pública das cidades?

 

Kleber Frizzera

Maio 2020

 

Publicado em Movimentoonlin.com.br

sábado, 9 de maio de 2020

Um erro


O projeto Portal do Príncipe
Se em dezembro/ 2019, o projeto do Portal do Príncipe, proposto pelo Governo do Estado para a entrada sul de Vitória, vinculado a uma visão rodoviarista, já’ se mostrava inadequado para as exigências urbanas e especificamente para o local de sua implantação, após a pandemia do corona vírus, a proposta se mostra como um equivoco muito maior.
Pensadores de todo o mundo, políticos, urbanistas e arquitetos, tem refletido sobre o futuro das cidades, alertando sobre as novas condições e práticas urbanas, em um mundo pós pandemia, e apontando algumas  tendências:
1. A pandemia expôs uma crescente desigualdade urbana, de rendas, empregos e condições de trabalho, e principalmente, denunciou as deficientes condições físicas e ambientais das moradias populares- sem falar dos moradores de rua-, e seus impactos diretos na contaminação e disseminação do vírus. Ao mesmo tempo, cresce o entendimento e a consciência da responsabilidade pública na condução de políticas habitacionais inclusivas, com a reabilitação de imóveis fechados, subutilizados ou abandonados nas áreas urbanas.
2. Não há’ mais dúvidas que o trabalho e o ensino em regime de home office, bem como compras online, tendem a crescer exponencialmente, afetando as movimentações diárias, e, reduzindo o número de viagens dedicadas a estas tarefas, trabalho, ensino e compras. O regime do trabalho 24/7- 24 horas, sete dias da semana-, já e’ crescente, a algum tempo, nas grandes metrópoles, alterando os números, os objetivos e as horas pico dos deslocamentos diários e estas rotinas de mobilidade devem se acelerar também nas metrópoles menores.
3. Muito provavelmente, haverá’ uma reconfiguração das atividades econômicas, a redução da globalização da economia, do comércio exterior, um processo de reindustrializacao local e um esforço para reduzir as dependências nacionais do mercado internacional. A Grande Vitória, fatalmente, será afetada pela diminuição do volume e valores das commodities, e devera’ se esforçar para que novos empreendimentos, tecnológicos ou intensivos de mão de obra, produtores de bens e serviços pessoais e empresariais, materiais e imateriais, compensem e substituam estas perdas futuras de rendas públicas e privadas.
Diante destas três, prováveis possibilidades, as cidades precisam e devem reestruturar, ambiental, econômica e socialmente, a produção, -inclusive através do trabalho colaborativo-, o consumo consciente dos bens e serviços, a mobilidade diária, as práticas de vida cotidiana, privada e pública e a oferta de habitações e ambientes urbanos dignos a todos os seus moradores.
O projeto Portal do Príncipe, conforme divulgado na sua contratação, não atende a nenhuma destas demandas, ao contrário, o projeto :
Prioriza o veículo individual como meio principal de locomoção em detrimento do transporte coletivo, segmenta a cidade e separa os bairros, não preserva e não propõem espaços para a habitação e atividades produtivas e contribui para a desqualificao ambiental e estética da região.
Isto e’, um projeto inútil, pouco atento e comprometido  com o futuro e novas exigências para a metrópole.
Reitero minhas críticas anteriores ao projeto, publicadas em Movimentoonline.com.br, dezembro/2019, onde dizia:
Gostaria de destacar as seguintes faltas ou ausências notadas na proposta publicada:
1.  Uma conexão adequada dos dois lados do aterro, ligando e articulando, principalmente para o pedestre, a ilha do Príncipe ao morro do Quadro e do Alagoano, a avenida Alexandre Buaiz `a avenida Santo Antônio,
2.  Uma proposta de expansão e requalificação do mercado da Vila Rubim, lugar tradicional de abastecimento e sociabilidade dos moradores da cidade de Vitória,
3.  A previsão de implantação de um sistema de transporte coletivo de média capacidade, tipo BRT ou VLT, que conecte o centro de Vitória `a Cariacica e Vila Velha
4.  Um proposta de geração de espaços construídos, para abrigarem edifícios de habitação social, serviços públicos e privados, comércios e instalação de novos negócios,
5.  E finalmente uma
qualificação paisagística  e ambiental através da implantação de um parque linear, que ligue o mercado da Vila Rubim `a rodoviária e ao parque Tancredo Neves.”
Cabe ao Governo do Estado estabelecer um debate amplo, da oportunidade e qualidade deste projeto, e que possa contribuir positivamente para a sua revisão, vinculada os novos desejos e necessidades da Grande Vitória.

Kleber Frizzera
maio 2020
 

domingo, 26 de abril de 2020

Uma nova vida doméstica.



Os esforços mundiais de controle e resistência ao avanço do corona vírus tem estimulado e exigido que mais e mais pessoas se recolham as suas casas, o único lugar aparentemente protegido contra os riscos da contaminação.
Estas exigências, ao transferir parte da vivência cotidiana para os interiores das residências, trabalhos, relações sociais e entretenimentos, tem deixadas expostas as deficiências físicas, sensoriais, funcionais e simbólicas da casa brasileira, e revelam a extensão das desigualdades sociais e urbanas.
De um lado, ficam claras a profunda exclusão de grande parte da população da condição mínima de moradia, dimensões compatíveis, infraestruturas e localizações adequadas, e de outro lado, visíveis os equívocos formais, sensíveis e materiais da produção capitalista imobiliária e de suas relações com o entorno natural e as cidades.
As desigualdades urbanas têm a sua origem na profunda diferença de rendas que cliva a sociedade, impedindo aos setores mais pobres o acesso ao mercado imobiliário, e e’ exponenciada pelos baixos investimentos públicos na produção de imóveis e urbanizações de qualidade para esta população.
Os setores médios e superiores, a algum tempo, têm alterado os perfis demográficos, aumento da expectativa de vida, adiamento do casamento e da maternidade, etc., observados nas metrópoles na oferta de imóveis e ambientes urbanos projetados para a vida solitária ou famílias pequenas, adequados para os novos perfis pessoais e comportamentos sociais.
Responde esta oferta `as alterações dos grupos familiares, ao crescimento da proporção de famílias dirigidas por mulheres e do número de jovens adultos vivendo nas residências maternas, e no geral, uma redução significativa, identificada no censo de 2010, do número de moradores por unidade habitacional.
A imposição atual de um maior tempo de permanência e vivência diária nas casas ou apartamentos, tem demonstrado ou sinalizado as seguintes inadequações ambientais, simbólicas e funcionais;
1.    A forte segregação urbana imposta à população pobre, nos locais de moradia e na mobilidade urbana, mas também, por decisão própria, a setores da classe média, que passaram a se isolar nos condomínios fechados.
2.   O acirramento dos comportamentos autoritários no convívio familiar, da violência doméstica, principalmente contra as mulheres. A casa tradicional, reduto feminino, torna-se local da disputa, onde os homens, expulsos dos lugares tradicionais da sociabilidade masculina, nas ruas e bares, passam a querer demarcar o seu poder e presença no espaço doméstico.
3.   O retorno do papel da cozinha como um centro de compartilhamento dos afetos domésticos, na produção e consumo dos alimentos, em comum, práticas que tinham sido reduzidas pelo crescente aumento da alimentação fora de casa.
4.   As limitações para a instalação de ambientes adequados ao home office, em residências onde não há privacidade suficiente para o exercício do trabalho e estudo individual, bem como suportes físicos e tecnológicos para estas atividades.
5.    Casas e apartamentos desenhados e construídos, nas áreas metropolitanas, para o uso noturno ou de fim de semana, mostram-se insuficientes, em dimensões e confortos corporais, inadequados em termos ambientais e pouco estimulantes para atender o usufruto intenso e simultâneo de toda a família.

Algumas sintomas destas situações já podiam ser percebidas no crescente interesse no reforma ou decoração dos interiores dos imóveis, construídos em série, em condomínios e edifícios de apartamentos. Insatisfeitos com uma estética insípida, layouts restritivos, estimulados ao consumo de móveis e equipamentos domésticos, moradores de vários estratos de renda, passaram a contratar profissionais e investir para (re)decorar e qualificar os seus espaços domésticos.
A crise atual da pandemia deve alterar a profundamente a vida pública, exigir novas modulações nos projetos urbanos e na utilização dos ambientes coletivos, mas também pode apresentar a oportunidade para pensar, propor e reconfigurar o espaço privado, a partir, creio, das seguintes condições:
1.    A superposição de atividades de aprendizado, redes sociais e trabalho aos usos correntes da habitação, da convivência afetiva e reprodução da força de trabalho, vem somar a demanda do autonomia feminina no espaço privado e urbano e das potencializações dos desejos e diversificação dos gostos nas experiências individuais e grupais.
2.   A necessidade imperiosa de fornecer moradias e urbanizações de qualidade a um conjunto imenso de cidadãos, acompanha, urgente e necessária, à redução das desigualdades de renda. A produção, em escala, de habitações e de suas infraestruturas, não se limita a uma questão técnica ou de financiamento, exige participação dos moradores e um entendimento dos modos de vida e práticas que se desenvolvem nos bairros populares, seus valores e exigências particulares de sobrevivência, trabalho e lazer.
3.   E finalmente, a casa tem que ser entendida e percebida, não mais simplesmente como o local do atraso, da reprodução de comportamentos tradicionais ou hierárquicos, mas como um cenário da vida, onde sob a pressão das transformações externas e internas, se movimenta, fervilha uma grande e possível mudança de comportamentos privados, de inovadoras relações de afetos, poderes e prazeres, onde as mulheres e os jovens tem um papel central na suas invenções, subjetivações e gozos.

O desenhos e os projetos destas novas casas, de suas inserções no meio natural e construído, de suas formas visíveis e potenciais, a serem reveladas pelos usos múltiplos e singulares, ainda não existem e são desafios para uma sociedade, seus técnicos e políticos, comprometidos para mundos e tempos melhores, na vida privada e na vida pública.

Kleber Frizzera
Abril 2020

sábado, 11 de abril de 2020

O sequestro do tempo e ( do espaço)


Gianozzo: Há três coisas que o homem pode dizer que lhe pertencem propriamente: a fortuna, o corpo...
Lionardo: – E qual seria a terceira?
Gianozzo: – Ah! Uma coisa extremamente preciosa. Essas mãos e esses olhos não são meus como ela.
Lionardo: – Maravilha! E o que é?
Gianozzo: – O tempo, meu caro Lionardo, o tempo, meus filhos.
Leon Battista Alberti.
Seculo XV

Uma das lutas centrais e que fez parte das conquistas principais dos trabalhadores no século XX, foi pela limitação diária de 8 horas de trabalho, uma luta histórica que tem enfrentado desde o fim da Idade Média, a ordem, o ritmo e o controle disciplinar do tempo e do cotidiano humano, impostos pelo capitalismo.
A regulamentação da cadência e do encadeamento do esforço urbano, diz Jacques Le Goff, “e’ uma das principais necessidades que, no século XIV, impulsionaram a sociedade a modificar a medida do tempo, quer dizer, o próprio tempo: a necessidade de se adaptar à evolução econômica.” De uma economia rural, dominada pelos ritmos agrários, sem pressa, sem rigor ou exatidão, pouco capaz da medição dos esforços quantitativos, definidos pelos regimes do solo e do calendário natural, pela rotina “do levantar-se ao por do sol”, a Europa, no Renascimento, caminhou para um mundo urbano, o mundo das horas certas, do tic tac do relógio mecânico.
Para Le Goff, este século do relógio e’ o momento da produção expandida do regime disciplinar dos corpos, da apropriação da riqueza e dominação do estado e dos proprietários, mas e’ também “aquele do canháo e da profundidade do campo visual. Tempo e espaço transformam-se igualmente para o erudito e mercador.”
A transição moderna para a revolução fabril industrial criou, segundo E. P. Thompson, “uma nova percepção do tempo, ditada pela precisão, pelas unidades do relógio e divididas as jornadas diárias em períodos de produção e reprodução”. O século XIX, com a expansão das indústrias nos países centrais e a manutenção da escravidão, no Brasil, ate’ praticamente o final do período, assistiu uma universalização das formas de controle dos tempos e das rotinas dos esforços humanos, inclusive com a incorporação de jovens e crianças aos processos produtivos.
Para Antônio Negri, em Assembly, agora, uma outra concepção do tempo emerge do interior da fase atual, quando somos progressivamente todos exortados a elevarmos a nossa “produtividade em todos os momentos de nossas vidas.”, e progressivamente, nas palavras de Jonhatan Crary, somos todos “destituídos do tempo”.
Há alguns anos, vários autores têm descrito estas fortes alterações dos regimes dos tempos e ritmos do trabalho e seus impactos sobre a vida cotidiana, pública e privada, e consequentemente sobre a experiência coletiva dos espaços urbanos.
O livro de Jonathan Crary, Capitalismo tardio e os fins de sono, publicado em 2015, pode se visto como um alerta, uma antecipação `as condições impostas , hoje, pela quarentena do Coronavirus. Afastados dos lugares partilhados de trabalho, do lazer e de ensino/ aprendizagem, muitos de nós, somos restritos ao confinamento doméstico e obrigados ao regime do home office, onde, “sem o espaço e o tempo da privacidade, longe da luz implacável e crua da constante presença do outros no mundo, não se pode alimentar a singularidade do eu”, uma restrição, que remete, depois do seu uso, devolve o usuário/ consumidor `a sua solidão privada.
A experiência urbana, pública, diversa, múltipla e compartilhada, alerta Crary, esta’ se atrofiando, e assistimos a uma crescente redução e alteração das capacidades mentais, sensoriais e perceptivas, e entre o tempo humano e as temporalidades do sistema das redes, um conjunto de “ disjunções, fraturas e desequilíbrios compõem a experiência real destas relações”.
Atualmente, tornados inúteis ou descartáveis, imensos contingentes de desempregados ou trabalhadores em home office, desenvolvem, em horários expandidos/ ilimitados, sem noite, sem sonhos, atividades precárias, instáveis, temporárias, submetidos ao ritmo incessante de 24/7, vinte e quatro horas, sete dias por semana, sequestrados, o tempo e o espaço, individual e social, pelos poderes e interesses econômicos.
Exilados das nossas cidades, sequestrados das temporalidades naturais e do usufruto dos lugares comuns, quais os caminhos humanos, na pós pandemia, para voltarmos, retornarmos ao mundo público e à invenção da história, e diante da constante presença real e corporal do outros, “depois de repetidas negações e repressões”, enfrentarmos os riscos da liberdade e da felicidade?

Kleber Frizzera/ abril 2020

sábado, 28 de março de 2020

cidade


Uma pós cidade

Onde mora o perigo também cresce a salvação
Hölderlin


Para onde nos leva esta estrada

Uma pergunta ronda os tempos de pandemia.
Superada a fase crítica da peste, que afasta os corpos, separa e penaliza as proximidades e os afetos, quando ultrapassadas as perdas, as dores, os sofrimentos e as solidões dos isolamentos e das mortes, a que cidades retomaremos para nossos usos e prazeres?
As cidades, nos disse o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, são construídas para possibilitarem as conversas entre os homens e as mulheres, para ativarem as trocas no espaço público, nas praças e nos mercados, nas escolas e nos espetáculos, para compartilhar alegrias com os amigos nos bares, nas igrejas, nos estádios, etc.
Por séculos, a humanidade foi construindo um lugar denso, comum, um lugar de proximidade física e temporal, onde os cidadãos podem se encontrar e viver experiências comuns. Um lugar especial, a cidade, onde podemos discutir, concordar e discordar, comprar e vender, orar, dançar e cantar, estar em multidão, e nos reconhecer como sujeito diante do outro, do diferente, do bárbaro. Nestes ambientes e práticas urbanas civilizadas, rompemos nossa solidão, enfrentamos nossa inevitável finitude, e temos a oportunidade de reinventar nossa história e projetar o nosso futuro, pessoal e coletivo.
Nos tempos difíceis, quando nos recolhemos em nossas casas, nos afastamos da contaminação dos corpos dos próximos, amigos, parentes, desconhecidos, desconfiados de todos eles, possíveis de conter e espalhar o vírus mortal, o que estamos acumulando em nossas paixões e singularidades?
Estamos refletindo, que este momentos são os adequados para revermos nossas posturas diante da vida, diante das crescentes segregações sociais, econômicas e urbanas, dos individualismos, das intolerâncias e dos egoísmos?
Voltaremos, superados os fortes constrangimentos atuais, para partilhar uma cidade pós pandemia, com qual disposição de espírito e de ação?
Manteremos vestidos as nossas armaduras de segurança, que nos tem protegido da epidemia, reforçando, no retorno ao cotidiano, os preconceitos de todos os tipos, o ódio e o desprezo `a diversidade que circula nas nossas ruas,
ou
Vacinados com as limitações dos contatos físicos e afetivos, tornaremo-nos conscientes das condições e fragilidades comuns da humanidade, da sua dependência de tantos, médicos e enfermeiros, entregadores e motoristas, agricultores e policiais, artistas e professores, de inúmeros trabalhadores para a nossa própria sobrevivência,
Aceitaremos esta frágil situação da vida humana, que depende dos esforços, trabalhos e solidariedade de muitos para ter sentido, significado e continuidade,
e voltaremos `as ruas, mais humildes, mais solidários, mais atentos e quem sabe, mais animados para fazermos nossas cidades menos desiguais, mais justas, mais belas e mais felizes.

Kleber Frizzera
Março 2020  

terça-feira, 17 de março de 2020

Terceira ponte



Desde a sua inauguração, ou mesmo antes, a terceira ponte esteve presente nos debates, discussões, apreciações e desentendimentos que circulam nas conversas diárias dos moradores da metrópole e da midia capixaba.
No início, foi aplaudida como solução para os engarrafamentos que paralisavam a área central de Vitória, criticada quando interrompida a sua construção e finalmente intensamente comemorada na sua inauguração.
O trânsito pelo centro foi reduzido, os investimentos imobiliários- habitações e shoppings- abriram uma nova fronteira na orla de Vila Velha, atraindo novos e inúmeros moradores. Ninguém parou para pensar se a escolha de sua implantação teria sido a melhor ou mais adequada, estimulando a ocupação litorânea da cidade e dividindo o município em dois lados.
A concentração em Vitoria dos empregos e instituições públicas, o crescimento da ocupação do planalto de Carapina, fez que rapidamente a solução da terceira ponte se transformasse em um problema. O custo do pedágio, engarrafamentos diários e excepcionais em caso de seu fechamento, passaram a penalizar aqueles que diariamente são obrigados a utilizá-la e um mundo de propostas e ideias de soluções passou a circular.
Transporte aquaviario, alargamento com novas pistas, deslocamento temporário da barreira central, acessos a pedestres e bicicletas, redução ou eliminação do pedágio se somaram a dezenas de outras sugestões que ainda circulam no dia a dia da cidade.
Nenhuma ou quase nenhuma destas propostas entendeu que era e e’ preciso priorizar o transporte coletivo, não apenas, necessário para reduzir o volume de veículos privados, mas por ser a forma internacional adotada para o desenvolvimento sustentável das áreas metropolitanas, como preconiza o Plano de desenvolvimento integrado da Grande Vitoria - PDUI -aprovado pela Assembleia Legislativa nos final de 2018.
A proposta atual, apresentada pelo Governo do Estado, de ampliar uma faixa para veículos e a implantação de uma ciclovia parece anacrônica e desligada dos problemas reais e das soluções contemporâneas de mobilidade urbana.
A instalação de uma ciclovia, em uma via com inclinação de ate’ 6%, com mais de 3 km de extensão, além de permitir o passeio dominical, pouco ira’ facilitar o deslocamento cotidiano, parecendo ser apenas uma satisfação aos movimentos ciclistas. A expansão da oferta e dos horários dos ônibus que transportam bicicletas e’ muito mais econômico, mais seguro e menos penoso para os que a usam diariamente.
Quanto a uma nova faixa, que irá aumentar a capacidade da ponte, será tornada inútil quando desembocar estes somados veículos nas limitações físicas das ruas das duas cidades vizinhas, transferindo gargalos e engarrafamentos para os seus interiores.
Cabe entender que os veículos particulares, como base e fundamento da mobilidade urbana em todo o mundo estão com os dias contados. Mais e mais cidades têm restringido os acessos as suas áreas centrais, totalmente ou criando pedágios elevados, e buscado transferir as demandas de mobilidade pessoal para o transporte público, coletivo, alguns gratuitos, acessível, de alta capacidade e conforto, movidos a eletricidade e associados a uma forte intervenção na malha construída.
Na Grande Vitória, como ações gerais para melhoria e desempenho da mobilidade, creio urgente um conjunto de ações, visando :
1.   Conter a expansão da malha urbana, evitando a sua fragmentação e dispersão, que aumenta as distancias e tempos de deslocamento; estimular o adensamento dos setores construídos infra estruturados, em decadência ou com diminuição populacional
2.   Preparar a metrópole para as novas formas e relações de trabalho, dispersas, temporárias, muitas vezes precárias, ou feitas a distância, sendo muitas delas já’ deslocadas para o interior das moradias.
3.   Estruturar um sistema metropolitano de mobilidade, de pessoas e bens, gerido por uma empresa pública com a participação dos moradores e dos municípios.
São tarefas deste sistema criar as condições físicas e ambientais para o movimentos a pé’, de bicicletas, motocicletas, facilitar os acessos aos morros, instalar redes locais de permeabilidades, promover o transporte aquaviario, produzir uma regulamentação dos serviços tipos Uber e Taxis, controlar as pontes, e por fim, implantar um sistema de transporte publico, tipo VLT
4.    E finalmente, mas não por último, cabe planejar e investir em um plano de habitação e urbanização metropolitano, com o objetivo reduzir as condições de desigualdades sociais e urbanas.
Para os céticos, cabe lembrar que todas as previsões garantem que a metrópole terá estabilizada a sua população na década de 2030, daqui a dez anos, e teremos de prover e viver em uma cidade com mais idosos, menos jovens, onde superados os momentos críticos das migrações rural das década de 1970 e 1980, haverão as condições para qualificar a vida urbana, com a produção de moradias e serviços públicos para todos, melhores e com maior qualidade de serviços.
E, por fim, não podemos esquecer que qualquer ação deve se subordinar ao nosso compromisso de participar da luta em defesa do planeta e de enfrentamento do aquecimento global, afinal pode sobrar a suas consequências para nós moradores costeiros.


Kleber Frizzera
Março 2020

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Carnaval 2020


A cidade ensinou-me infinitos temores:
Multidões, uma rua me sobressaltaram,
Uma ideia, outras vezes, flagrada num rosto.
Sinto ainda nos olhos a luz traiçoeira
Dos milhares de postes nas grandes calçadas.
Cesare Pavese

Eu desfruto de tanto belo e vivo em utopias
Hegel

Carnaval
A cidade toda se movimenta, se agita, jovens e velhos se agrupam, se divertem, em festas, nas ruas, em blocos e desfiles, para experimentar e comemorar algo em comum.
A vida?
Liberados do cotidiano, do trabalho que cansa, da educação que disciplina, das disputas que exaurem a vontade, das práticas sociais que ordenam o corpo e definem os seus limites, homens e mulheres experimentam as fronteiras dos prazeres, dos gozos e das alegrias coletivas.
Nestes momentos, as experiências sensoriais, estimuladas pelas bebidas e comidas, envolvidas pelas danças e músicas, pelos contatos físicos, roubados beijos e olhares temporários, valem mais que a posse dos objetos.
Mas seria o envolvimento total com o prazer fugaz uma forma imposta de consumo, um gasto inútil de uma experiência rápida e superficial, um envolvimento pessoal com um evento passageiro que não deixa ou não fixa nenhum traço significativo?
Para Peter Glotz, o entretenimento possivelmente guarda uma  relação com a Paixão que conduz `a morte: e completa, a condenação do  entretenimento, da distração e da arte ligeira tem raízes religiosas.
Byung Chul Han, filósofo coreano, procura entender o aumento do tempo dedicado ao entretenimento no mundo atual, de outra maneira, quando, supõem ele, trabalho e ócio estão perdendo sua barreira impermeável e se mesclam, como escreve no seu mais recente livro, 2018, Bom entretenimento.
Afirma o filósofo, a história do Ocidente e’ uma história da Paixão: as culturas com tradição crista’ a entendem como um sofrimento insuportável e inevitável que só ao final dos tempos será recompensado. A Paixão, transferida ao trabalho e ao esforço cotidiano, tem sido entendida como uma oposição, ao largo da história, aos conceitos e as experiências corporais do prazer e do ócio.
O entretenimento e as muitas formas do carnaval podem parecer uma decadência para a sociedade, mas são realmente tão distintos o puro absurdo do jogo ao puro sentido da Paixão?
Para alguns estudiosos, a universalização do entretenimento surge modernamente com a regulação do trabalho, que inventa, normatiza, e se opõem o tempo do ócio, sem o qual não haveria um momento próprio para a diversão, um privilégio anterior exclusivo da aristocracia, uma classe que não trabalhava. O entretenimento seria um conjunto de atividades com que se preenche o tempo livre da rotinas e das regras do trabalho.
No mundo atual, buscam-se cada vez mais excedentes de tempo que liberem a vida da coerção e a desvinculação com o constrangimento dos lugares e das disciplinas são elementos de uma aproximação com uma utopia urbana, do gozo e da pura diversão, diz Adorno, uma forma que a aproxima da arte, que liberada, seria não só o seu oposto, mas também o extremo que a toca. Uma utopia e’ próxima da arte, e, Arte e’ paixão, e apenas a paixão tem acesso a transcendência, escreveu George Steiner, falecido recentemente.
E Byung Chul Han propõem, provoca :
O entretenimento se eleva a um novo paradigma, a uma nova forma do mundo e do ser. Para ser, fazer parte do mundo, e necessário ser algo que entretém. Só o que resulta em entretenimento é’ real ou efetivo. Não e’ mais relevante a diferença entre a realidade fictícia e real,...a realidade parece ser um efeito do entretenimento.
Paixão e entretenimento são irmanados?


Kleber Frizzera
Fevereiro 2019